domingo, 7 de agosto de 2022

Ana Luísa Amaral (1956-2022)

Morreu ontem Ana Luísa Amaral. Bem sei que a obra permanece, mas quando morre um poeta, o mundo fica mais cinzento e menos nítido. A notícia brusca da sua morte trouxe-nos um sentimento de orfandade. 




Numa entrevista ao Expresso, publicada originalmente a 29 de maio de 2019 e agora reproposta no site do jornal, a poeta dizia:

"A poesia de facto não serve para nada, não tem uma aplicação prática. Com a poesia não se faz uma mesa, não se constrói uma casa. Mas ela é absolutamente fundamental, porque, como toda a arte, assiste-lhe não o pragmatismo, mas o simbólico, e nós, humanos, precisamos do simbólico, que passa sempre pela nossa relação com os outros. Precisamos dele como precisamos de comer ou de dormir."

 

Ao longo do dia de ontem, a sua obra foi tomando conta do Facebook, pelo menos de muitas das pessoas que sigo. E fui lendo e relendo e senti-me menos órfã. É muito bonito ver que poemas seus escolhem para a homenagear! Quis guardar aqui alguns desses poemas, bem como os links para programas de rádio e de televisão com Ana Luísa Amaral, para a ela e à sua poesia poder mais facilmente regressar. 

Na impossibilidade de colocar aqui todos, escolhi 3 desses poemas:


Testamento

Vou partir de avião
E o medo das alturas misturado comigo
Faz-me tomar calmantes
E ter sonhos confusos

Se eu morrer
Quero que a minha filha não se esqueça de mim
Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
E que lhe ofereçam fantasia
Mais que um horário certo
Ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
Dentro das coisas
Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
Em vez de lhe ensinarem contas de somar
E a descascar batatas

Preparem minha filha para a vida
Se eu morrer de avião
E ficar despegada do meu corpo
E for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
A minha filha
E mais tarde que diga à sua filha
Que eu voei lá no céu
E fui contentamento deslumbrado
Ao ver na sua casa as contas de somar erradas
E as batatas no saco esquecidas
E íntegras.




Prece no Mediterrâneo


Em vez de peixes, Senhor,
dai-nos a paz,
um mar que seja de ondas inocentes,
e, chegados à areia,
gente que veja com coração de ver,
vozes que nos aceitem
É tão dura a viagem
e até a espuma fere e ferve,
e, de tão alta, cega
durante a travessia
Fazei, Senhor, com que não haja
mortos desta vez,
que as rochas sejam longe,
que o vento se aquiete
e a vossa paz enfim
se multiplique
Mas depois da jangada,
da guerra, do cansaço,
depois dos braços abertos e sonoros,
sabia bem, Senhor,
um pão macio,
e um peixe, pode ser,
do mar
que é também nosso.

(do mural da escritora Irene Vallejo)



Lugares comuns

Entrei em Londres
num café manhoso (não é só entre nós
que há cafés manhosos, os ingleses também
e eles até tiveram mais coisas, agora
é só a Escócia e um pouco da Irlanda e aquelas
ilhotazitas, mas adiante)
Entrei em Londres
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia (isto é só para quem não sabe
fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era
mesmo muito manhoso,
não é que fosse mal intencionado, era manhoso
na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha
suja. Muito rasca.
Claro que os meus preconceitos todos
de mulher me vieram ao de cima, porque o café
só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate
(se fosse em Portugal era sandes de queijo),
mas pensei: Estou em Londres, estou
sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses
até nem se metem como os nossos,
e por aí fora...
E lá entrei no café manhoso, de árvore
de plástico ao canto.
Foi só depois de entrar que vi uma mulher
sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me
mais forte, não sei porquê mas senti-me mais forte.
Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e
depois eu
Lá pedi o café, que não era nada mau
para café manhoso como aquele e o homem
que me serviu disse: There you are, love.
Apeteceu-me responder: I’m not your bloody love ou
Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois
pensei: Já lhes está tão entranhado
nas culturas e a intenção não era má e também
vou-me embora daqui a pouco, tenho avião
quero lá saber
E paguei o café, que não era nada mau,
e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta
a ver a tribo toda a comer ovos e presunto
e depois vi as horas e pensei que o táxi
estava a chegar e eu tinha que sair.
E quando me ia levantar, a mulher sorriu
como quem diz: That’s it
e olhou assim à sua volta para o presunto
e os ovos e os homens todos a comer
e eu senti-me mais forte, não sei porquê,
mas senti-me mais forte
e pensei que afinal não interessa Londres ou nós,
que em toda a parte
as mesmas coisas são.

(do mural da professora Guilhermina Rebocho)



Graças às maravilhas da tecnologia, podemos continuar a escutá-la em algumas moradas virtuais, como, por exemplo:

- os 255 episódios (de cerca de 15 minutos) disponíveis desse verdadeiro curso de poesia do mundo que é o programa "O som que os versos fazem quando abrem", onde Ana Luísa Amaral conversa com Luís Caetano sobre poesia.

- os primeiros 46 minutos da conferência Vale a pena ler, Festival Antena 2, em 2017.

- o podcast do Encontro de Leituras, o clube conjunto do jornal Público com o brasileiro Folha de S. Paulo.

- o episódio de 15 de julho de 2022 de A Ronda da Noite, em que conversa com Luís Caetano a propósito do seu último livro, O olhar diagonal das coisas. 

- a Grande Entrevista, que passou ontem na RTP3.

terça-feira, 19 de julho de 2022

O valor da lentidão

 


Em Elogio da Lentidão, pequeno ensaio de Lamberto Maffei (o primeiro dos 3 publicados pelas Edições 70, a que se seguiram O Elogio da Palavra e O Elogio da Rebeldia), o médico, neurobiólogo e investigador italiano convida-nos a refletir acerca da importância do pensamento lento na era da velocidade e da abundância estonteante de estímulos visuais e  cognitivos. Sem demonizar o pensamento rápido, aliás ancestral e essencial à sobrevivência do ser humano, Maffei sugere que regressemos «ao ritmo lento da linguagem falada e escrita». Pois será que desejamos apenas sobreviver? 

Recorda-nos que se o ócio (do latim otium,  contraposto «à palavra negotium, "negócio", entendida como atividade laboral») adquiriu uma interpretação negativa, associado à preguiça e à passividade, na verdade era, na essência, «entendido como tempo livre para a reflexão, para o estudo, para o pensamento». Na época da pressa e dos números, tempo de valor incalculável para todos nós, mas ainda mais fulcral para os criativos e para quem trabalha nas áreas da educação e da cultura, diria eu. Este pensar que antecede o fazer. O pensamento ligado ao raciocínio, à memória, à dúvida, à exploração, à reflexão e à crítica, e que é, necessariamente, lento. O pensamento do encontro, do diálogo e da leitura profunda.

Lamberto Maffei convoca outros autores, como Italo Calvino (Seis propostas para o próximo milénio: Lições Americanas), Daniel Kahneman (Pensar, depressa e devagar), Zygmunt Bauman (vários) e Martha Nussbaum (Sem fins lucrativos: Porque precisa a democracia das humanidades), levando-nos inevitavelmente a (revisitar) outras leituras e reflexões.

Achei particularmente interessantes os capítulos "IV - Bulimia de consumos, anorexia de valores" e "V - Criatividade". Primeiro, pela consciencialização de que «o consumismo é filho do pensamento rápido, pois também o consumo deve ser rápido para mudar o desejo de forma igualmente rápida e voltar a comprar» e que a formação de cidadão críticos levaria quase certamente à defesa de «uma economia da sobriedade e da sustentabilidade.» Depois, pelo alerta sobre aquilo que Maffei designa um cérebro "globalizado" e a necessidade no mundo atual do pensamento divergente, não só do artista e do cientista, mas de todos nós. 


P.S. Esta é uma questão fulcral na minha vida pessoal e profissional. Sobre o valor da lentidão, já aqui falei em 2014: 

https://mediarleituras.blogspot.com/2014/06/rubem-alves-o-vagar-curiosidade-o-amor.html

https://mediarleituras.blogspot.com/2014/06/pedagogia-da-lentidao.html


sexta-feira, 8 de julho de 2022

UMA OFICINA DE LEITURA E ESCRITA COM O MAR POR HORIZONTE

 


«A leitura é um processo de humanização pela capacidade que oferece de linguagem, de pensamento e de reflexão. Leva a uma mudança de aspiração na vida, pois lendo você descobre que há outros caminhos, outras opções.»

Eliana Yunes



A 29 de junho de 2022 terminou o projeto (RE)MAR: UMA OFICINA DE LEITURA E ESCRITA COM O MAR POR HORIZONTE, iniciado em outubro de 2021, com os alunos do 3ºB da EB1 do Agrupamento de Escolas de Sines. 

Realizámos a última de 18 sessões na praia de Sines, fazendo jus ao título do projeto. No alto da escadaria que subimos para regressar à escola, deparámo-nos com a linha do horizonte sobre a imensidão do mar. Enquanto registávamos fotograficamente aquele momento, ao relembrar aos alunos porque decidira assim nomear a nossa oficina, refleti em como este projeto alargara verdadeiramente os horizontes de vida destas crianças. Ao ler, escrever e dialogar sobre o lido e escrito, o mundo dos alunos do 3º B expandira-se grandemente em poucos meses. Pensei nas palavras da conferência de Eliana Yunes na semana anterior no XIX Encontro de Literatura Infantojuvenil Caminhos de Leitura, em Pombal: “uma vez leitor, sempre leitor. E uma vez descoberto o segredo de saber o que não se sabia, impossível parar, a não ser por acidente”.

Estivemos um ano (letivo) inteiro envolvidos num projeto de promoção e mediação da leitura e da escrita, financiado pela candidatura de recuperação das aprendizagens, (RE)LER com a Biblioteca, da Rede de Bibliotecas Escolares, numa escola que pertence ao programa TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária): “a ver, ler, descobrir, escrever”. 

Tenho tanto a dizer e a escrever sobre este projeto! Mas isso ficará para o regresso ao trabalho após as férias de verão. Por hoje, quero apenas expressar a imensa alegria e gratidão pelo convite da professora Maria de Fátima Nunes a pensar e a dinamizar as sessões da Oficina de Leitura e Escrita com estas crianças.

A aposta feita num projeto de mediação da leitura e da escrita prolongado no tempo e com caráter regular demonstrou-se extremamente acertada. Só desta forma foi possível acompanhar o crescimento dos alunos enquanto leitores e escritores e construir uma relação de confiança, cumplicidade e afeto entre a mediadora e as crianças, capazes, assim, de se entregarem ao prazer da leitura, de questionar e interpretar os livros, de enfrentar as dificuldades inerentes à escrita e de criar os seus próprios textos. Os bons resultados obtidos só foram possíveis devido à total colaboração, bem como presença e apoio constante da professora titular, Rute Torres, das professoras bibliotecárias, Maria de Fátima Nunes e Rosa Martins (que também dinamizaram algumas sessões em semanas em que não tocava à mediadora) e das docentes de apoio, Maria João Lopes e Orlanda Ramos. E não posso deixar de agradecer do fundo do coração às autoras que enriqueceram este projeto e participaram em encontros memoráveis para estes leitores / escritores: Cristina Taquelim e Mafalda Milhões (por carta e online) e Carla Maia de Almeida (presencialmente). A minha profunda gratidão a todas!



A metodologia da Oficina de Leitura e Escrita nos seus momentos essenciais (a saber: leitura, releitura, diálogo, escrita, partilha, leitura autónoma), tal como a desenvolvo desde 2014, provou-se muito eficaz também em grupos maiores (turma) em sala de aula e, como neste caso, com uma turma com grandes e reconhecidas dificuldades ao nível da aprendizagem da leitura e da escrita que motivaram a candidatura ao programa (RE)LER da RBE no final do ano letivo 2020/2021. 

Apesar de a turma ainda revelar dificuldades ao nível das aprendizagens curriculares esperadas para um 3º ano, os resultados falam por si, a saber: 

- Grande evolução na compreensão leitora, concretamente da capacidade de leitura da narrativa visual e da narrativa textual, encontrando-se os alunos, neste aspeto, no final do ano letivo, a par ou mais avançados do que a média dos alunos que frequentam o mesmo ano de escolaridade.

- Grande evolução na relação afetiva e estética com a literatura para a infância de qualidade, tendo os alunos lido de forma partilhada, isto é, com a mediadora, ou autónoma, cerca de 50 livros de reconhecida qualidade literária e estética cada um em 2021/2022.

- Bom progresso na competência de escrita (em quase todos os alunos, com exceção de 4 alunos que ainda não dominam a leitura e a escrita, quando no início do ano letivo o panorama era exatamente o oposto, isto é, poucos eram os que conseguiam ler e escrever), visível na autonomia com que escrevem e na vontade de escrever no caderno, mesmo quando a mediadora não o solicita.

- Ampliação do vocabulário, domínio e fluência cada vez maior da linguagem oral e escrita, a apontar ao contacto regular com a literatura para a infância de qualidade e à prática continuada do diálogo em tono do lido e da escrita. A leitura tornou-se escrita e a escrita fomentou a leitura, incentivando-se e influenciando-se mutuamente.

- Crescente valorização pessoal e reconhecimento dos alunos perante si próprios e perante a turma, enquanto leitores e escritores.

A evolução dos alunos nestes diferentes campos é reconhecida pela mediadora, pela docente titular, Rute Torres, pelas professoras bibliotecárias, Rosa Martins e Maria de Fátima Nunes, bem como pelos próprios alunos, a quem foi pedido que avaliassem o projeto. Algumas das suas considerações registadas nos cadernos pessoais do (RE)MAR:

 “Eu acho que evoluí como leitor e escritor, porque eu não gostava de ler, nem escrever, mas (...)  percebi que ler e escrever é muito bom para a nossa alma e a nossa mente.”  

“Eu acho que evoluí como leitora e escritora, porque eu antes achava que não conseguia fazer textos grandes e agora já consigo.” 

“Eu não acreditava que ler era bom, mas agora gosto de ler os livros. E gostei muito destes 18 encontros com a Paula. E também com as autoras Cristina Taquelim e Mafalda Milhões e a escritora Carla Maia de Almeida.” 



 

domingo, 3 de julho de 2022

OBSERVATÓRIO DE LEITURA E ANTÓNIO TORRADO


Os Caminhos de Leitura continuam a crescer. Não se limitam a nutrir e inspirar anualmente os muitos mediadores de leitura de todo o país que rumam a Pombal para o Encontro de Literatura Infantojuvenil. Querem ir mais longe e mais fundo, fomentando a reflexão permanente em torno da seleção de bons livros. 

Na abertura da edição deste ano, foi anunciada a criação de um Observatório de Leitura, composto por 10 especialistas que irão analisar, discutir e distinguir os melhores livros para a infância publicados em todos os países de língua portuguesa com exceção do Brasil, pois a Cátedra Unesco de Leitura da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio de Janeiro, entidade parceira e inspiradora o projeto português, já faz esse estudo e seleção relativamente aos livros produzidos anualmente no Brasil desde 2016. A representar a Cátedra Unesco de Leitura, a professora Eliana Yunes explicou, de forma sucinta, o interessante trabalho de análise e estudo aprofundado dos livros publicados no Brasil para a sua posterior seleção e distinção.


Mafalda Milhões, Benita Prieto e Eliana Yunes

O Observatório de Leitura será coordenado pelo Município de Pombal, mais concretamente, pelas Unidade de Cultura e Unidade de Projetos Educativos, e terá a coordenação técnica de Benita Prieto. Será constituído pelos seguintes elementos, alfabeticamente ordenados:

Dora Batalim
Ieda Alcântara
Jorge Serafim
Margarida (Bru) Junça
Maria José Vitorino
Paula Cusati
Rita Pimenta
Rui Marques Veloso
Sara Reis Silva
Tâmara Bezerra




Os primeiros livros distinguidos com os selos do Observatório de Leitura serão apresentados na XX edição dos Caminhos de Leitura, em junho de 2023. A imagem gráfica dos selos ficará a cargo de Mafalda Milhões, que, durante a apresentação do Observatório de Leitura, revelou que o selo Menção Honrosa terá o nome de António Torrado. Foi um momento de profunda comoção para todos os presentes, entre os quais se encontrava Lourdes Fragateiro, viúva do grande escritor e mentor de tantos professores e mediadores de leitura portugueses.

É uma honra pertencer a este grupo de pessoas apaixonadas pela literatura para a infância e juventude. Muito grata à Sónia Fernandes, do Município de Pombal, e à Benita Prieto pelo convite!

segunda-feira, 27 de junho de 2022

NUNO MARÇAL e a BIBLIOMÓVEL

                                    Bibliomóvel, do FB de Nuno Marçal



Regressada a casa após os XIX Caminhos de Leitura, é tempo de refletir sobre o vivido, lido e aprendido durante esses dias em Pombal. Creio que esta edição ficará para sempre gravada na minha memória / no meu coração, não só pela necessidade que todos nós, promotores e mediadores do livro e da leitura, sentíamos de estarmos novamente juntos de verdade, mas também, e sobretudo, pela qualidade do programa desenhado pela Sónia Fernandes, do Município de Pombal, e por toda a sua equipa. Um abraço muito grato a todos! 

Ao longo dos próximos dias, irei escrever aqui sobre este Encontro de Literatura Infantojuvenil. Começo hoje com um elo que ficou a faltar no primeiro dia. A 23 de junho, após a conferência de abertura da professora Eliana Yunes, coube-me moderar o painel LEITURAS E LUGARES: PROJETOS E PRÁTICAS DE LEITURA. No palco, estiveram Rose Carneiro e Emanueli Unfer (Trilhos da Leitura - Rio Grande do Sul), Ana Sofia Marçal (Festival Literário "Maratona de Leitura"), Pep Duran Oller (Ler no Bosque - Bibliobosc al Montseny) e Elsa Serra (Na Rua com Histórias), que nos apresentaram os seus projetos inspiradores. 


Porém, ficou a faltar alguém. Do programa inicial constava o Nuno Marçal, que nos iria falar da sua Bibliomóvel. Por motivos pessoais justificadíssimos, o Nuno avisou a organização de que afinal não poderia estar presente. Por considerar o seu trabalho tão importante, eu não queria perder a oportunidade de o ouvir falar sobre a Bibliomóvel e as terras e gentes de Proença-a-Nova. Aqui ficam, acabadas de chegar esta manhã, as importantes e necessárias respostas do Nuno às questões que lhe coloquei, para que possam ser lidas e relidas, e chegar ainda a mais pessoas do que as que estavam no dia 23 no Teatro-Cine de Pombal. Obrigada, Nuno! As tuas respostas apontam o caminho para o futuro das bibliotecas. Que continues a contagiar-nos com o teu exemplo inspirador!

Bibliomóvel, do FB de Nuno Marçal


Qual a ideia / necessidade que te levou a começar o projeto "Bibliomóvel"?

A Bibliomóvel surgiu de uma candidatura que o Município de Proença-a-Nova, em parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Sobreira Formosa, efectuou ao Programa Progride do Ministério da Segurança Social, em resposta aos grandes incêndios de 2003 que destruiram grande parte da mancha florestal do concelho. Essa candidatura, além da Bibliomóvel, incluiu uma Unidade Móvel de Saúde. A necessidade destes projectos prendia-se com o levar serviços de proximidade (cultura, saúde e sempre algo mais) a populações afectadas pelos incêndios florestais.
A Bibliomóvel entrou ao serviço no dia 26 de junho de 2006 e mantêm-se até hoje com esse objectivo de ir, estar e dar Biblioteca Pública sobre rodas a TODAS as Pessoas, as que sabem ler, as que não sabem ler e as que não querem ler. TODAS as Pessoas!

Como é o território e a população que serve?

O concelho de Proença-a-Nova é um território ultra-periférico da periferia geográfica de Portugal, com cerca de 7000 habitantes, eminentemente rural com povoação dispersa por pequenas aldeias e cujas características principais são o envelhecimento e a desertificação. Apesar de tudo isto, conseguem manter a genuinidade, a bondade e a imensa hospitalidade das boas Pessoas e sou um afortunado por conhecer e privar com elas.

Quais as principais características / valores deste projeto?

Proximidade, Periodicidade, Cumplicidade, Intimidade e Amizade. Creio que são estes os valores desta Biblioteca Pública sobre rodas atenta às necessidades e vontades da comunidade onde anda e trabalha. As Bibliotecas para sobreviverem e reconquistarem a relevância e a importância que tiveram e têm vindo a perder são aconselhadas/obrigadas a isso mesmo, estarem atentas não se fecharem dentro das suas ameias e muralhas e trabalharem quase em circuito fechado tantas vezes para um quase imenso vazio e silêncio. As Bibliotecas têm de ser úteis para a comunidade, só assim conseguem que seja essa mesma comunidade a participar e acima de tudo a defendê-las das imensas ameaças que pairam sobre elas.
Alargar o espectro funcional, sem sair obviamente da sua matriz de identidade como Casas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade onde o livre acesso à informação e conhecimento credíveis e verificados, espaços de encontro, de partilhas, de ajuda, de formação, de encanto e deslumbramento e sempre algo mais para TODAS as Pessoas tem que fazer parte obrigatoriamente do cardápio de actividades e funções das Bibliotecas Vivas!

Que balanço fazes do trabalho até agora realizado e quais os próximos passos?

Passaram 16 anos desde aquele primeiro dia. Muita coisa mudou, a minha ideia e ideal de Biblioteca transformou-se radicalmente e diversificou-se, como pessoa também mudei muito. O território e as Pessoas, essas, mantêm-se iguais com os mesmos problemas, potencialidades e amabilidades. Quero e gosto de acreditar que ao longo destes 16 anos contribuímos, com uma gota de água ou um grão de areia de bem estar e felicidade para transformar o quotidiano destas terras e gentes. Quero muito e gosto muito de acreditar que assim foi.
Os próximos passos....(pergunta difícil!). Tenho imensa Vontade de continuar a ser bibliotecário-ambulante, as Bibliotecas itinerantes são viciantes e uma "doença" que infecta e de cura difícil. A minha vida mudou, deu trambolhões imensos, as prioridades passaram a ser outras e, por isso mesmo, tenho reflectido imenso sobre o meu futuro e do meu filho Tomás. Trabalhar longe de casa acarreta logísticas difíceis e, por isso, sem procurar cura para essa doença das Bibliotecas Itinerantes, estou receptivo a um quilómetro 0 noutro projecto e desafio. Caso ele não surja, continuarei "infectado" e a tentar "infectar" mais uns quantos nestas estradas, nestas terras e gentes.



P.S. Se quiserem acompanhar o Nuno nesta viagem com a Bibliomóvel, podem fazê-lo nas redes sociais e em www.opapalagui.blogspot.com .

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Em junho todos os Caminhos (de Leitura) vão dar a Pombal

 Junho já vai a meio e, apesar do dia cinzento e chuvoso, o verão está a chegar. E, com ele, as férias. É aquele período do ano em que a nossa mente já só pensa nos dias de descanso, mas ainda há muito a fazer.

Por aqui, embora as sessões semanais das Oficinas de Leitura e Escrita e do Laboratório de Leitores Livres na Casa das Palavras tenham terminado no final de maio, como é habitual, ainda tenho muito trabalho pela frente (felizmente!). Tudo parece estar a voltar à normalidade.

Este verão regressam as Palavras Andarilhas e daqui a exatamente uma semana começa o XIX Encontro de Literatura Infantil e Juvenil Caminhos de Leitura, organizado pela Câmara Municipal de Pombal. As inscrições ainda estão abertas, basta seguir o link acima. O programa é variado e muito interessante, como poderão constatar. 


Sigo estes Caminhos há muitos anos, ainda eles eram Carreirinhos de Leitura, e tanto tenho com eles aprendido. Já tinha saudades. 

É com grande prazer que regresso a Pombal como convidada. No dia 23, apresentarei a professora Eliana Yunes, referência mundial na área da leitura e da formação de leitores, cuja conferência inaugural terá como tema "A leitura, ainda uma vez e sempre".  De seguida, irei moderar o painel "Leituras e Lugares - projetos e práticas de leitura", com a presença de Rose Carneiro e Emanueli Unfer (Trilhos de Leitura, Rio Grande do Sul, Brasil), Ana Sofia Marçal (Festival Literário "Maratona de Leitura", Sertã),  Pep Duran (Ler no Bosque - Bibliobosc al Montseny) e Elsa Serra (Na Rua com Histórias). Nos dias 24 e 25, estarei a dinamizar a oficina:

 LUGARES DE LEITURA

Sinopse: Podemos ler na rua, no bosque, numa aldeia remota, na escola, em casa, numa biblioteca moderna ou numa livraria no cimo de um monte, mas o que acomuna estes lugares que pensam a leitura em continuidade? Iremos desconstruir os diferentes elementos que os compõem, analisando as suas características e comparando-os com os lugares onde trabalhamos. Como cuidar dos nossos lugares para que contribuam para a formação de apaixonados e capazes leitores do mundo e de livros? Oficina recheada de muitos exemplos práticos e de bons livros. 



Espero encontrar-vos em Pombal!

terça-feira, 5 de maio de 2020

NOSSA LÍNGUA - NOSSO CHÃO

Cartaz de Susa Monteiro


Foi uma honra e um grande gosto integrar a equipa deste projecto que celebra o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Um grande obrigada à Cristina Taquelim, à Cristina Paiva, ao Fernando Ladeiras, a todos os participantes e, naturalmente, à Direção Regional de Cultura do Alentejo, na pessoa da Dra Ana Paula Amendoeira e da assessora de comunicação Dra Sandra São Pedro.



“NOSSA LÍNGUA – NOSSO CHÃO”
projecto da Direção Regional de Cultura do Alentejo

em parceria com a Chão Nosso, Crl e Andante Associação Artística


No âmbito das comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, proclamado pela Unesco, e que se celebra a 5 de Maio, a Direcção-Geral de Cultura do Alentejo, em parceria com a Chão Nosso, Crl e a Andante Associação Artística, concebeu um projecto denominado " Nossa Língua - Nosso Chão", que visa a celebração da nossa língua e das suas literaturas.

Criámos 3 objectos sonoros, com leituras em voz alta de textos da tradição oral e de autores de língua portuguesa suportadas em música original, com a duração de cerca de 10 minutos, que integrarão as grelhas das rádios locais do Alentejo, ao longo do dia de hoje, para públicos de todas as idades. Aqui pelo Litoral Alentejano aderiram ao projecto a Rádio Sines e a Rádio Clube de Grândola.

FICHA TÉCNICA:
Concepção: Colectivo
Direcção artística: Cristina Paiva e Fernando Ladeira (Andante Associação Artística)
Produção: Cristina Taquelim e Paula Cusati (Chão Nosso, Crl)
Sonoplastia: Fernando Ladeira (Andante Associação Artística)
Criação literária: Marina Colasanti
Leituras: Cristina Paiva, Cristina Taquelim, João Brás, Jorge Serafim, Paula Cusati.
Criação musical: Dinis Costa
Imagem/ design gráfico: Susana Monteiro
Textos: Almada Negreiros, António Torrado, Fialho de Almeida, Florbela Espanca, João Pedro Mésseder, Joaquim Figueira Mestre, Lídia Jorge, Manuel da Fonseca, Mia Couto, Rita Taborda Duarte, Sylvia Orthof, Vítor Encarnação, Virgínia Dias.

Participantes por ordem alfabética:
Cristina Paiva
Cristina Taquelim
Dinis Costa
Fernando Ladeira
Jorge Serafim
João Brás
Marina Colasanti
Paula Cusati
Susana Monteiro

Participação em leitura colectiva: 5 bibliotecários do Alentejo:
Isabel Martins, José Eduardo Biscainho, Maria Paula Santos, Eduarda Marques, Nuno Bentes. Página da Direção Regional de Cultura do Alentejo