quarta-feira, 20 de junho de 2018

Refugiados

Refugiados, um poema (via) de Adam Zagajewski, Prémio Princesa das Astúrias de Literatura 2017. A Tinta da China editou pela primeira vez em Portugal uma antologia bilingue da sua poesia, Sombras de Sombras

Refugees

bent under burdens which sometimes
can be seen and sometimes can’t,
they trudge through mud or desert sands,
hunched, hungry,
silent men in heavy jackets,
dressed for all four seasons,
old women with crumpled faces,
clutching something – a child, the family
lamp, the last loaf of bread?
It could be Bosnia today,
Poland in September ’39, France
eight months later, Germany in ’45,
Somalia, Afghanistan, Egypt.
There’s always a wagon or at least a wheelbarrow
full of treasures (a quilt, a silver cup,
the fading scent of home),
a car out of gas marooned in a ditch,
a horse (soon left behind), snow, a lot of snow,
too much snow, too much sun, too much rain,
and always that special slouch
as if leaning toward another, better planet,
with less ambitious generals,
less snow, less wind, fewer cannons,
less History (alas, there’s no
such planet, just that slouch).
Shuffling their feet,
they move slowly, very slowly
toward the country of nowhere,
and the city of no one
on the river of never.

Colocar-se no lugar do outro

No Dia Mundial do Refugiado, deixo 5 sugestões de leitura. Porque, sobretudo em tempos de barbárie, a literatura oferece-nos a possibilidade de nos colocarmos no lugar do outro e de nos questionarmos: "E se fosse eu?", a meu ver, algo fulcral nos dias de hoje.



Il Viaggio, Francesca Sanna, Emme Edizioni.



Quando Hitler roubou o coelho cor-de-rosa, Judith Kerr, trad. e prefácio Carla Maia de Almeida, Booksmile.



O mundo em que vivi, Ilse Losa, Edições Afrontamento.



Eu sou Malala, Malala Yousafzai com Patricia McCormick, Editorial Presença. 



O rapaz que contava histórias, Zana Fraillon, TopSeller.



Todos estes livros fazem parte da biblioteca do projeto OFICINA DE LEITURA E ESCRITA.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Grandes Histórias para Pequenos Leitores

Comecei esta Semana da Leitura 2018 com mais uma sessão do projeto continuado para pré-leitores, GRANDES HISTÓRIAS PARA PEQUENOS LEITORES, que desenvolvo no JI "O Sabichão", em Santiago do Cacém, desde o ano letivo de 2012/2013. Tem sido uma experiência muito enriquecedora para mim enquanto mediadora. 





É um privilégio poder acompanhar o crescimento destes (pré)leitores, ver como se amplia o tempo de escuta e de diálogo em torno das histórias , como aumenta a concentração, o vocabulário e a compreensão, como analisam cada vez melhor as imagens, prestando atenção aos detalhes e às pistas, fazendo inferências, ativando conhecimentos prévios, estabelecendo relações, confirmando hipóteses, imaginando novas possibilidades, enfim, como leem de forma mais profunda. Um trabalho que só é possível com o apoio da diretora deste jardim-de-infância, Carminho Rodrigues, dos pais e, sobretudo, da educadora Maria João Machado, grande companheira, que com mestria aproveita todas as oportunidades deixadas em aberto pelas sessões quinzenais e enriquece assim este projeto.  
Espero este ano poder voltar a realizar o encontro formativo com os pais dos alunos, pois é fundamental que à leitura na escola se some a leitura em família, de modo a que a ligação aos livros e ao ato de ler se torne mais sólida, frutífera e duradoura.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

O mediador, o livro e o leitor

Há exatamente uma semana, tive o grato prazer de refletir com 28 mediadores de leitura do Algarve acerca de "O MEDIADOR, O LIVRO E O LEITOR: A mediação de leitura na sua essência". A convite da Biblioteca Municipal de Loulé - Sophia de Mello Breyner Andresen desenhei e dinamizei uma ação de formação de 6 horas assente em pilares teóricos e baseada em experiências concretas de mediação da leitura em diferentes contextos. Analisámos a essência do ato de mediar leituras e do ato de ler e construir significado. Refletimos criticamente acerca da nossa prática de mediação leitora e procurámos melhorá-la. Estas foram algumas das questões que focámos:
- Qual o nosso papel enquanto mediadores?
- O que é supérfluo na nossa atuação enquanto mediadores de leitura?
- Como recuar e fomentar o encontro entre o livro e o leitor?
- Quais as práticas que favorecem experiências fulcrais para a formação de leitores?


Gostaria de agradecer a todos os participantes pelos livros que trouxeram, pelas questões que levantaram, pelas experiências que partilharam, pelas reflexões que a todos possibilitaram, pelas sugestões que generosamente me ofereceram.
No comboio de regresso a casa, comecei a planificar outras duas ações de formação para mediadores: LER E ESCREVER COM ADOLESCENTES e LABORATÓRIO DE MEDIAÇÃO LEITORA, brevemente disponíveis. 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Livros extraordinários

Não é uma notícia recente, porém parece-me importante voltar a pensar sobre este tema.
Há mais de uma década, a secção americana do IBBY (International Board on Books for Young People) seleciona anualmente os livros internacionais publicados nos EUA que considera extraordinários ("outstanding") pelo seu valor literário e artístico, bem como pela sua singular perspetiva cultural . Entre os 41 livros escolhidos em 2017, há um livro português, o extraordinário Daqui ninguém passa, de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho, da editora Planeta Tangerina.

Daqui ninguém passa (do site da editora)


Numa época em que se agiganta a intolerância e a incompreensão, "estes livros convidam o leitor a «olhar novamente» e a reconhecer que embora sejamos diferentes - cultural e geograficamente - permanecemos ligados e mantemos valores comuns. Representam experiências que refletem o que nos une enquanto humanos. Estas narrativas pedem aos seus leitores que «pensem novamente» nas suas comunidades e nos que as constituem - aqueles que fazem parte da família humana ou animal - de forma a recordar que estamos juntos nos nossos esforços. Finalmente, estas obras encorajam os jovens a «avaliar novamente» o que pode ter sido dispensado por ser diferente. 

(...) Cada um [destes livros] possui uma luz especial, solicitando, encorajando ou seduzindo os leitores para que vejam, questionem e avaliem para além do que lhes foi previamente apresentado, de modo a tornarem-se mais críticos e conscientes. " 
                                                                                         minha tradução, aqui o original.   


The Journey, Francesa Sanna, Flying Eye Books.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Manifesto de uma mediadora da leitura e da escrita

Acredito no poder das palavras, na sua capacidade de evocar mundos, abater fronteiras, alargar horizontes e tornar-nos mais livres.
Defendo a ideia de que as palavras e as histórias que oferecemos às crianças são mais do que isso, são ideias, são olhares profundos sobre o mundo complexo, enorme e de uma beleza infinita. Por isso, devemos possibilitar esse acesso o mais precocemente possível, para que elas comecem desde logo a participar na leitura do mundo. 
Leio em voz alta e conto histórias não para entreter ou para passar o tempo, mas, sim,  para alargar e abrandar o tempo, de modo a que juntos possamos saborear, pensar, sentir, questionar, construir significados, entender, imaginar, desejar descobrir e continuar a ler (os livros, os outros, o mundo). 
Creio na leitura e na escrita como espaços de encontro, experiências de diálogo intenso connosco próprios, com os outros, com o nosso e com outros mundos e tempos. Esse diálogo, assente na atenção e na escuta, na razão e na contemplação, promoverá um exercício de pensamento, de cidadania e de construção da própria voz. 
Proponho um trabalho de mediação da leitura e da escrita assente na continuidade das ações, na qualidade do acervo e na profundidade do questionamento em torno do texto, de maneira a promover a formação de leitores críticos e autónomos, capazes de uma escolha consciente e informada. 
Assumo a minha responsabilidade enquanto ponte entre o texto / o livro e o leitor. Acredito no valor da minha profissão e espero contribuir para a sua dignificação, por isso todos os dias leio, investigo e reflito sobre o meu trabalho.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Leitura literária e empatia

«A ficção em prosa é algo que construímos a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação e em que a pessoa sozinha, usando a imaginação, cria um mundo, povoa-o e observa-o com outros olhos. Experimentam-se sensações, visitam-se lugares e mundos que de outra maneira nunca conheceríamos. Aprendemos que toda a gente que por aí anda é também uma pessoa. Ao lermos, somos outras pessoas e ao regressarmos ao nosso mundo voltamos ligeiramente diferentes. (...)
À medida que lemos, descobrimos algo que é muito importante para a forma como lidamos com o mundo. E é isto:
O MUNDO NÃO TEM DE SER ASSIM. AS COISAS PODEM SER DIFERENTES.»
                                  Neil Gainman, excerto de "Porque é que o nosso futuro depende
das bibliotecas, da leitura e de sonharmos acordados:
Palestra na Reading Agency, 2013",
in O que se vê da última fila, Elsinore.