segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Para gostar de Ler

 
"Para gostar de Ler" é o título de um documentário lindo de cerca de uma hora acerca da importância da leitura para o desenvolvimento da criança. Estreou no Brasil  há poucos dias integrado na campanha "Leia para uma criança", do Programa Itaú Criança  promovida pelo banco brasileiro desde 2010. Outra das iniciativas desta instituição bancária em prol da leitura tem sido a distribuição gratuita de livros, num total de 45 milhões até hoje.

Neste documentário, as histórias de cinco famílias leitoras são entrelaçadas com os comentários de especialistas, pedagogos e autores, demonstrando, na prática e na teoria, a importância dos vínculos familiares na criação de hábitos de leitura. Este é um dos aspetos fundamentais do meu trabalho enquanto mediadora da leitura e que tenho vindo a desenvolver desde 2012. Neste ano letivo estão já agendadas 3 sessões (para pais e profissionais do Pré-Escolar, 1º Ciclo e 2º CEB)  acerca da Importância da Leitura na BE da EB1 de Vila Nova de Santo André. Falaremos certamente deste documentário:


Carta aberta de uma mediadora de leitura neste regresso à escola




Carta aberta a todos os que constroem e lutam por uma escola melhor



Cada início de mais um ano letivo representa sempre uma nova oportunidade de fazer mais e melhor. Cada recomeço pode e deve trazer consigo horizontes largos e possibilidades concretas. Este é o momento em que todos (famílias, docentes, funcionários, diretores e suas equipas, direções gerais, autarquias, etc) focam, ou deveriam focar, a sua atenção e os seus esforços conjuntos  na construção de uma escola mais motivadora, inclusiva e atenta à realidade que a circunda. Os dados europeus relativos à literacia são preocupantes: 1 em cada 5 jovens de 15 anos e 1/4 da população adulta da União Europeia não possui as competências de leitura e escrita necessárias para funcionar plenamente em sociedade (1). Embora os alunos portugueses de 15 anos tenham finalmente obtido uma posição superior à média da OCDE em leitura nos exames PISA de 2015 (2),  há muito para fazer. Enquanto mediadora da leitura e da escrita, gostaria de  vos convidar a refletirem comigo acerca do importante e insubstituível papel que cada um de vós cumpre, ou poderá cumprir, na edificação de um percurso escolar precioso e fecundo para as crianças e jovens que dentro de poucos dias entrarão nas salas de aula do nosso país. É essencial ajudar a formar leitores, ou melhor, a cultivar leitores autónomos e críticos, cidadãos ativos e participativos desde tenra idade.
 
Se as famílias reconhecerem neste recomeço a ocasião ideal para criar ou retomar hábitos de leitura partilhada, por exemplo, como a história da boa noite, todas as noites, sem pressas nem ânsias de praticar a leitura, mas simplesmente pelo prazer de desfrutarem juntos de uma boa narrativa, a criança associará o ato de ler a momentos permeados de afetos e conversas significativas. Se as casas dessas famílias forem ambientes leitores e elas mantiverem esses hábitos independentemente da idade da criança e da sua fluência leitora, esta não sentirá a leitura como um peso ou uma prova, mas como um gesto natural e também uma dádiva.
 
Se os docentes não se deixarem soterrar pelas orientações curriculares e programas, mas souberem lê-los com um sentido de prioridade e propósito, serão capazes de dedicar quotidianamente um tempo à leitura e à escrita. Saberão fazê-lo não com fichas, nem com manuais, mas com a autêntica literatura para a infância e juventude, com o seu entusiasmo, o seu conhecimento e a sua experiência de educadores e professores leitores, lendo em voz alta, fomentando a leitura individual e a construção coletiva de sentido. Para além de tudo o que já as habita, e que talvez até cause demasiado ruído (o início do ano letivo é uma excelente ocasião para "curar" os espaços educativos), as salas de aula têm que ter livros, muitos e bons. Com os livros certos os docentes conseguirão chegar até aos alunos mais relutantes.
 
Se os diretores e as suas equipas assumirem a leitura e a escrita como competências transversais fulcrais para a aprendizagem ao longo da vida, que sustentam a curiosidade, a imaginação e a criação de conhecimento em qualquer área, saberão mobilizar toda a escola em torno de um plano leitor anual ou plurianual. Saberão apoiar os professores bibliotecários e os restantes docentes, atribuindo-lhes os recursos (financeiros, humanos, formativos) necessários para que a leitura e a escrita não sejam reduzidas a provas, concursos, ou espetáculos, mas antes adquiram a dignificação plena e a alegria contagiante que advém da prática quotidiana, do esforço de aprender, do prazer de ler e compreender, e da consequente evolução e melhoria por parte dos alunos a todos os níveis.
 
Se as direções-gerais (e o ministério da educação) apoiarem verdadeiramente as escolas, os seus diretores e todos os docentes, saberão fazer cada vez mais um trabalho de acompanhamento e supervisão pedagógica em detrimento da fiscalização burocrática.

 Se as autarquias investirem seriamente na cultura e na educação, saberão apoiar as escolas e as famílias, dedicando uma boa parte do seu orçamento a programas municipais de promoção do livro e da leitura em parceria com as escolas, outras instituições culturais e, obviamente, o Plano Nacional de Leitura. Valorizarão os mediadores das bibliotecas municipais, confiando no seu trabalho e na sua experiência. Darão o seu exemplo e não meramente a sua presença.

Tudo isto é possível. Uma escola leitora, inspiradora, para todos, não é uma utopia. Para que tal aconteça, cada um de nós (famílias, docentes, funcionários, diretores e suas equipas, direções gerais, autarquias, etc) deverá deixar de lado as críticas, as queixas, as desculpas e fazer a sua parte. Ninguém se pode excluir ou isentar. Basta de palavras. É hora de gestos concretos. Aproveitem este início limpo, este ano inteiro por escrever. Ajam, agora!

Atenciosamente,
Paula Cusati
mediadora de leitura
 
 
 (1) Síntese do Relatório do Grupo de Peritos de Alto Nível sobre Literacia da UE (Set. 2012): http://www.eli-net.eu/fileadmin/ELINET/Redaktion/user_upload/LITERACY_SUMMARY_PT.PDF

(2) Informações do IAVE sobre o Programme for International Student Assessment (PISA): http://iave.pt/np4/12.html
 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Férias Grandes IV



O Verão é a estação do ano em que volto a ler como quando era adolescente, durante horas a fio e sem pensar em mais nada, devorando um livro atrás do outro. Durante o resto do ano a leitura faz-se todos os dias, mas nunca por períodos tão extensos.
Este é o momento de recarregar baterias, armazenar bons textos para o trabalho com a leitura e a escrita dos restantes 9 meses, avaliar e renovar projetos, desenhar novas propostas. Um tempo fecundo e tão necessário.
Mais Férias Grandes aqui.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

As Guardas: Guardiãs de Tesouros XXXI

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui, com a frequência possível, uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.

 
 
 
A bola amarela
Daniel Fehr e Bernardo P. Carvalho
Planeta Tangerina
 
 
 

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Mediando a Leitura e a Escrita

Sou mediadora de leitura e de escrita,  ponte entre os livros / os textos e as pessoas.  Faço-o numa pequena cidade do litoral alentejano, embora viaje também para onde julgam ser necessário o meu trabalho. 
Dirijo-me aos leitores de todas as idades. E aos seus mediadores. Um dos objetivos do meu trabalho é, por isso, pensar a mediação leitora como um todo. Assim, todos os projetos continuados que desenvolvo são comunicantes, alicerçam-se reciprocamente e crescem em conjunto.
 
As GRANDES HISTÓRIAS PARA PEQUENOS LEITORES, um projeto para pré-leitores que dinamizo quinzenalmente há cinco anos consecutivos num Jardim-de-Infância privado da minha cidade, incluem, desde o primeiro momento. a vertente de formação para famílias / docentes, inicialmente através da Palestra acerca da Importância da Leitura para o Desenvolvimento Emocional, Cognitivo e Criativo da Criança, e, posteriormente, por meio dos encontros mensais CONVERSAS PEQUENAS PARA PAIS E PROFISSIONAIS, em redor da leitura e da sua promoção. A prática nunca é desligada da reflexão e da investigação, antes actuam as três como estímulo e nutrimento. São elos indissociáveis nesse ciclo permanentemente renovado que é o trabalho em torno da promoção da leitura, em cada nova sessão com as crianças, enriquecendo cada novo encontro com os mediadores, sejam eles familiares ou docentes.
 
Da constatação de que a maturação leitora é um percurso semelhante a uma escadaria, em que cada degrau é essencial para a passagem às etapas subsequentes, até à autonomia leitora, nasceram dois projetos continuados de que já falei um pouco aqui no blogue. São eles o LABORATÓRIO DE LEITORES LIVRES (para crianças a frequentar o 1º e 2º anos do 1º CEB) e a OFICINA DE LEITURA E ESCRITA. Este último, pensado como espaço de criatividade, pensamento e crescimento, visa a promoção e desenvolvimento das competências de leitura e escrita para crianças e jovens do 3º ao 9º ano de escolaridade. Encarar a leitura e a escrita como um prazer, mas, sobretudo, como uma forma de sermos plenamente nós, com horizontes muito mais alargados, é o principal objetivo da oficina. Partindo sempre de textos de autores portugueses e estrangeiros, criteriosamente selecionados e adequados à maturidade leitora de cada grupo, criamos textos individuais, partilhando-os, discutindo-os. A leitura em voz alta, o questionamento, o diálogo e a reflexão crítica sobre o processo de escrita são constantes. A leitura leva à escrita e vice-versa, num ciclo harmonioso e frutífero. As Oficinas acontecem semanalmente e estão pensadas como um todo articulado, de análise e progressão. Todas as semanas, cada aluno pode escolher para ler em casa um livro de entre os muitos disponíveis na biblioteca do projeto.
Por último, não posso deixar de referir as Quartas com Letras, comunidade de leitores que dinamizo no litoral alentejano e que permanentemente renova e amplia a minha capacidade de ler e de contruir sentido.

Nenhum destes projetos é estanque. Cada um deles influencia os restantes, ensinando-me a encontrar novas ligações, novos significados, a ler melhor os livros, as pessoas e o mundo. Entendo a formação de leitores e de mediadores como um processo infinito, fluído, profundo e abrangente, que envolve vários intervenientes e diferentes contextos. Por isso, é para mim sempre um privilégio quando sou desafiada a reflectir com outros leitores e mediadores acerca do meu trabalho em redor dos livros. Nos últimos seis meses, tive ocasião de o fazer nas IV Jornadas Biblioteconómicas de Abrantes, com a oficina "Cultivar Leitores na Era Digital", na Biblioteca Municipal de Faro, a propósito da "Importância da Leitura Partilhada na Infância",  nas II Jornadas da RBE de Lamego, através da oficina "Contar de Livro na Mão" e no IV Encontro "Para além de princesas e dragões", em Albergaria-a-Velha, com a comunicação "A Leitura como Construção de Liberdade". Todas elas foram grandes oportunidades de análise, avaliação e melhoria do meu trabalho enquanto mediadora de leitura e de escrita, pelas quais estou profundamente grata.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

As Guardas: Guardiãs de Tesouros XXX

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui, com a frequência possível, uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.





Aquário
Cynthia Alonso
Orfeu Negro (coleção Orfeu Mini)

terça-feira, 21 de março de 2017

A poesia é algo que anda pelas ruas

 
 



"A poesia é algo que anda pelas ruas. Que se move, que passa ao nosso lado. Todas as coisas têm o seu mistério e a poesia é o mistério que contém todas as coisas. (...) Por isso, não concebo a poesia como uma abstração, mas sim como uma coisa real existente, que passou junto de mim. (...) O principal é encontrar a poesia".
                                                                                                             Federico García Lorca