segunda-feira, 20 de agosto de 2018

XV Palavras Andarilhas



Esta semana regressam as Palavras Andarilhas à cidade de Beja. Verdadeira escola de narradores e mediadores de leitura, este Encontro de Aprendizes do Contar chegou à sua 15ª edição. O caminho não tem sido fácil, porém a equipa da Biblioteca Municipal de Beja, pela mão sábia da Cristina Taquelim, tem sabido resistir às crises financeiras, às mudanças políticas e tantas outras dificuldades, reinventando o encontro, mas preservando a sua alma.

As Palavras Andarilhas continuam a:
- fomentar a descentralização cultural, fazendo de uma cidade do Alentejo um grande (o mais importante) centro disseminador de boas práticas de narração oral e de promoção da leitura, mas também levando os contos a todas as freguesias rurais do concelho;
- pensar o encontro de modo a potenciar as linhas orientadoras e os projetos a desenvolver pela biblioteca com os diferentes públicos e contextos no ano seguinte ;
- trazer a Beja os melhores narradores, mediadores e autores nacionais e internacionais;
- promover um mercado livreiro com o que de melhor se publica em Portugal e no estrangeiro; 
- inspirar centenas de profissionais de todos os pontos do país;
- criar uma corrente de histórias por Portugal inteiro, através da Estafeta de Contos, ampliando, assim, o efeito destes quatro dias.

Aguardo esta altura do ano sempre com grande alegria, pois sei que iremos todos comungar do mesmo espírito de partilha e de escuta atenta e generosa. Irei reencontrar colegas e amigos, conhecer novas pessoas, aprender tanto e voltar a casa cheia de energia, ideias e livros para um ano inteiro de trabalho.
É um privilégio assistir a tantas iniciativas de qualidade e a tão boas conversas. E uma honra fazer parte da programação de mais uma edição:



As inscrições ainda estão abertas. Aqui o programa do encontro.
Quanto às muitas atividades paralelas, estas são de entrada livre para toda a população e para quem queira rumar a Beja. Apenas algumas carecem de inscrição prévia. 

As Palavras Andarilhas neste blogue em 2016 e em 2014.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Colher, guardar e partilhar

Le potager d'Alena, Sophie Vissiére, hélium.

De volta ao trabalho, regressam as memórias de verões passados.
Tendo vivido grande parte da minha infância no campo, o tempo era regido pelo ritmo da terra, da natureza e das estações. Esta altura do ano era o momento de recolher as sementes, preparar o terreno para as sementeiras e plantações do outono seguinte, colher os frutos e transformar a abundância em compotas e conservas a saborear nos meses de inverno.
De igual modo, este é o momento em que, grata pelos abundantes ensinamentos das experiências profissionais do passado ano letivo, releio, seleciono, avalio e reformulo, cozinhando já o trabalho futuro. Que este blogue seja sempre um lugar onde eu possa transformar essa gratidão em partilha útil para outros mediadores.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Refugiados

Refugiados, um poema (via) de Adam Zagajewski, Prémio Princesa das Astúrias de Literatura 2017. A Tinta da China editou pela primeira vez em Portugal uma antologia bilingue da sua poesia, Sombras de Sombras

Refugees

bent under burdens which sometimes
can be seen and sometimes can’t,
they trudge through mud or desert sands,
hunched, hungry,
silent men in heavy jackets,
dressed for all four seasons,
old women with crumpled faces,
clutching something – a child, the family
lamp, the last loaf of bread?
It could be Bosnia today,
Poland in September ’39, France
eight months later, Germany in ’45,
Somalia, Afghanistan, Egypt.
There’s always a wagon or at least a wheelbarrow
full of treasures (a quilt, a silver cup,
the fading scent of home),
a car out of gas marooned in a ditch,
a horse (soon left behind), snow, a lot of snow,
too much snow, too much sun, too much rain,
and always that special slouch
as if leaning toward another, better planet,
with less ambitious generals,
less snow, less wind, fewer cannons,
less History (alas, there’s no
such planet, just that slouch).
Shuffling their feet,
they move slowly, very slowly
toward the country of nowhere,
and the city of no one
on the river of never.

Colocar-se no lugar do outro

No Dia Mundial do Refugiado, deixo 5 sugestões de leitura. Porque, sobretudo em tempos de barbárie, a literatura oferece-nos a possibilidade de nos colocarmos no lugar do outro e de nos questionarmos: "E se fosse eu?", a meu ver, algo fulcral nos dias de hoje.



Il Viaggio, Francesca Sanna, Emme Edizioni.



Quando Hitler roubou o coelho cor-de-rosa, Judith Kerr, trad. e prefácio Carla Maia de Almeida, Booksmile.



O mundo em que vivi, Ilse Losa, Edições Afrontamento.



Eu sou Malala, Malala Yousafzai com Patricia McCormick, Editorial Presença. 



O rapaz que contava histórias, Zana Fraillon, TopSeller.



Todos estes livros fazem parte da biblioteca do projeto OFICINA DE LEITURA E ESCRITA.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Grandes Histórias para Pequenos Leitores

Comecei esta Semana da Leitura 2018 com mais uma sessão do projeto continuado para pré-leitores, GRANDES HISTÓRIAS PARA PEQUENOS LEITORES, que desenvolvo no JI "O Sabichão", em Santiago do Cacém, desde o ano letivo de 2012/2013. Tem sido uma experiência muito enriquecedora para mim enquanto mediadora. 





É um privilégio poder acompanhar o crescimento destes (pré)leitores, ver como se amplia o tempo de escuta e de diálogo em torno das histórias , como aumenta a concentração, o vocabulário e a compreensão, como analisam cada vez melhor as imagens, prestando atenção aos detalhes e às pistas, fazendo inferências, ativando conhecimentos prévios, estabelecendo relações, confirmando hipóteses, imaginando novas possibilidades, enfim, como leem de forma mais profunda. Um trabalho que só é possível com o apoio da diretora deste jardim-de-infância, Carminho Rodrigues, dos pais e, sobretudo, da educadora Maria João Machado, grande companheira, que com mestria aproveita todas as oportunidades deixadas em aberto pelas sessões quinzenais e enriquece assim este projeto.  
Espero este ano poder voltar a realizar o encontro formativo com os pais dos alunos, pois é fundamental que à leitura na escola se some a leitura em família, de modo a que a ligação aos livros e ao ato de ler se torne mais sólida, frutífera e duradoura.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

O mediador, o livro e o leitor

Há exatamente uma semana, tive o grato prazer de refletir com 28 mediadores de leitura do Algarve acerca de "O MEDIADOR, O LIVRO E O LEITOR: A mediação de leitura na sua essência". A convite da Biblioteca Municipal de Loulé - Sophia de Mello Breyner Andresen desenhei e dinamizei uma ação de formação de 6 horas assente em pilares teóricos e baseada em experiências concretas de mediação da leitura em diferentes contextos. Analisámos a essência do ato de mediar leituras e do ato de ler e construir significado. Refletimos criticamente acerca da nossa prática de mediação leitora e procurámos melhorá-la. Estas foram algumas das questões que focámos:
- Qual o nosso papel enquanto mediadores?
- O que é supérfluo na nossa atuação enquanto mediadores de leitura?
- Como recuar e fomentar o encontro entre o livro e o leitor?
- Quais as práticas que favorecem experiências fulcrais para a formação de leitores?


Gostaria de agradecer a todos os participantes pelos livros que trouxeram, pelas questões que levantaram, pelas experiências que partilharam, pelas reflexões que a todos possibilitaram, pelas sugestões que generosamente me ofereceram.
No comboio de regresso a casa, comecei a planificar outras duas ações de formação para mediadores: LER E ESCREVER COM ADOLESCENTES e LABORATÓRIO DE MEDIAÇÃO LEITORA, brevemente disponíveis. 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Livros extraordinários

Não é uma notícia recente, porém parece-me importante voltar a pensar sobre este tema.
Há mais de uma década, a secção americana do IBBY (International Board on Books for Young People) seleciona anualmente os livros internacionais publicados nos EUA que considera extraordinários ("outstanding") pelo seu valor literário e artístico, bem como pela sua singular perspetiva cultural . Entre os 41 livros escolhidos em 2017, há um livro português, o extraordinário Daqui ninguém passa, de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho, da editora Planeta Tangerina.

Daqui ninguém passa (do site da editora)


Numa época em que se agiganta a intolerância e a incompreensão, "estes livros convidam o leitor a «olhar novamente» e a reconhecer que embora sejamos diferentes - cultural e geograficamente - permanecemos ligados e mantemos valores comuns. Representam experiências que refletem o que nos une enquanto humanos. Estas narrativas pedem aos seus leitores que «pensem novamente» nas suas comunidades e nos que as constituem - aqueles que fazem parte da família humana ou animal - de forma a recordar que estamos juntos nos nossos esforços. Finalmente, estas obras encorajam os jovens a «avaliar novamente» o que pode ter sido dispensado por ser diferente. 

(...) Cada um [destes livros] possui uma luz especial, solicitando, encorajando ou seduzindo os leitores para que vejam, questionem e avaliem para além do que lhes foi previamente apresentado, de modo a tornarem-se mais críticos e conscientes. " 
                                                                                         minha tradução, aqui o original.   


The Journey, Francesa Sanna, Flying Eye Books.