terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Manifesto de uma mediadora da leitura e da escrita

Acredito no poder das palavras, na sua capacidade de evocar mundos, abater fronteiras, alargar horizontes e tornar-nos mais livres.
Defendo a ideia de que as palavras e as histórias que oferecemos às crianças são mais do que isso, são ideias, são olhares profundos sobre o mundo complexo, enorme e de uma beleza infinita. Por isso, devemos possibilitar esse acesso o mais precocemente possível, para que elas comecem desde logo a participar na leitura do mundo. 
Leio em voz alta e conto histórias não para entreter ou para passar o tempo, mas, sim,  para alargar e abrandar o tempo, de modo a que juntos possamos saborear, pensar, sentir, questionar, construir significados, entender, imaginar, desejar descobrir e continuar a ler (os livros, os outros, o mundo). 
Creio na leitura e na escrita como espaços de encontro, experiências de diálogo intenso connosco próprios, com os outros, com o nosso e com outros mundos e tempos. Esse diálogo, assente na atenção e na escuta, na razão e na contemplação, promoverá um exercício de pensamento, de cidadania e de construção da própria voz. 
Proponho um trabalho de mediação da leitura e da escrita assente na continuidade das ações, na qualidade do acervo e na profundidade do questionamento em torno do texto, de maneira a promover a formação de leitores críticos e autónomos, capazes de uma escolha consciente e informada. 
Assumo a minha responsabilidade enquanto ponte entre o texto / o livro e o leitor. Acredito no valor da minha profissão e espero contribuir para a sua dignificação, por isso todos os dias leio, investigo e reflito sobre o meu trabalho.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Leitura literária e empatia

«A ficção em prosa é algo que construímos a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação e em que a pessoa sozinha, usando a imaginação, cria um mundo, povoa-o e observa-o com outros olhos. Experimentam-se sensações, visitam-se lugares e mundos que de outra maneira nunca conheceríamos. Aprendemos que toda a gente que por aí anda é também uma pessoa. Ao lermos, somos outras pessoas e ao regressarmos ao nosso mundo voltamos ligeiramente diferentes. (...)
À medida que lemos, descobrimos algo que é muito importante para a forma como lidamos com o mundo. E é isto:
O MUNDO NÃO TEM DE SER ASSIM. AS COISAS PODEM SER DIFERENTES.»
                                  Neil Gainman, excerto de "Porque é que o nosso futuro depende
das bibliotecas, da leitura e de sonharmos acordados:
Palestra na Reading Agency, 2013",
in O que se vê da última fila, Elsinore.

 
 
 

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

As Guardas: Guardiãs de Tesouros: XXXIII

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui, com a frequência possível, uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.

 
 
 

Ask me
Bernard Waber e Suzy Lee (ilustr.)
Houghton Mifflin Harcourt Pusblishing House

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

5ª Temporada das Conversas Pequenas

Na próxima quarta-feira, dia 15 de Novembro, terá início a quinta temporada das Conversas Pequenas. Escolhi um tema fulcral, transversal a todos os que foram entretanto sugeridos para este ano pelos participantes regulares, e propedêutico para os encontros que se seguirão. Na prática, condensa o nosso papel enquanto adultos mediadores, quer sejamos pais, quer sejamos profissionais. 


ACOMPANHAR O CRESCIMENTO DE UM LEITOR. Desde o nascimento até à sua autonomia, veremos como é fundamental a presença do adulto que conta e lê histórias e dialoga verdadeiramente acerca delas com a criança e o jovem. Analisaremos vários livros com o intuito de distinguir entre literatura e produtos de marketing. Refletiremos acerca de como não desvirtuar o contacto da criança com a beleza da arte (neste caso, da literatura), pois desse contacto advém a atenção à / e a comoção com a diversidade do mundo, a pluralidade dos seres e das coisas, e a riqueza das suas representações.

domingo, 1 de outubro de 2017

As Guardas: Guardiãs de Tesouros XXXII

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui, com a frequência possível, uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.



Como pode ser a democracia
Equipo Plantel e Marta Pina (ilustr.)
Orfeu Negro (Coleção Livros para o amanhã #1)

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Para gostar de Ler

 
"Para gostar de Ler" é o título de um documentário lindo de cerca de uma hora acerca da importância da leitura para o desenvolvimento da criança. Estreou no Brasil  há poucos dias integrado na campanha "Leia para uma criança", do Programa Itaú Criança  promovida pelo banco brasileiro desde 2010. Outra das iniciativas desta instituição bancária em prol da leitura tem sido a distribuição gratuita de livros, num total de 45 milhões até hoje.

Neste documentário, as histórias de cinco famílias leitoras são entrelaçadas com os comentários de especialistas, pedagogos e autores, demonstrando, na prática e na teoria, a importância dos vínculos familiares na criação de hábitos de leitura. Este é um dos aspetos fundamentais do meu trabalho enquanto mediadora da leitura e que tenho vindo a desenvolver desde 2012. Neste ano letivo estão já agendadas 3 sessões (para pais e profissionais do Pré-Escolar, 1º Ciclo e 2º CEB)  acerca da Importância da Leitura na BE da EB1 de Vila Nova de Santo André. Falaremos certamente deste documentário:


Carta aberta de uma mediadora de leitura neste regresso à escola




Carta aberta a todos os que constroem e lutam por uma escola melhor



Cada início de mais um ano letivo representa sempre uma nova oportunidade de fazer mais e melhor. Cada recomeço pode e deve trazer consigo horizontes largos e possibilidades concretas. Este é o momento em que todos (famílias, docentes, funcionários, diretores e suas equipas, direções gerais, autarquias, etc) focam, ou deveriam focar, a sua atenção e os seus esforços conjuntos  na construção de uma escola mais motivadora, inclusiva e atenta à realidade que a circunda. Os dados europeus relativos à literacia são preocupantes: 1 em cada 5 jovens de 15 anos e 1/4 da população adulta da União Europeia não possui as competências de leitura e escrita necessárias para funcionar plenamente em sociedade (1). Embora os alunos portugueses de 15 anos tenham finalmente obtido uma posição superior à média da OCDE em leitura nos exames PISA de 2015 (2),  há muito para fazer. Enquanto mediadora da leitura e da escrita, gostaria de  vos convidar a refletirem comigo acerca do importante e insubstituível papel que cada um de vós cumpre, ou poderá cumprir, na edificação de um percurso escolar precioso e fecundo para as crianças e jovens que dentro de poucos dias entrarão nas salas de aula do nosso país. É essencial ajudar a formar leitores, ou melhor, a cultivar leitores autónomos e críticos, cidadãos ativos e participativos desde tenra idade.
 
Se as famílias reconhecerem neste recomeço a ocasião ideal para criar ou retomar hábitos de leitura partilhada, por exemplo, como a história da boa noite, todas as noites, sem pressas nem ânsias de praticar a leitura, mas simplesmente pelo prazer de desfrutarem juntos de uma boa narrativa, a criança associará o ato de ler a momentos permeados de afetos e conversas significativas. Se as casas dessas famílias forem ambientes leitores e elas mantiverem esses hábitos independentemente da idade da criança e da sua fluência leitora, esta não sentirá a leitura como um peso ou uma prova, mas como um gesto natural e também uma dádiva.
 
Se os docentes não se deixarem soterrar pelas orientações curriculares e programas, mas souberem lê-los com um sentido de prioridade e propósito, serão capazes de dedicar quotidianamente um tempo à leitura e à escrita. Saberão fazê-lo não com fichas, nem com manuais, mas com a autêntica literatura para a infância e juventude, com o seu entusiasmo, o seu conhecimento e a sua experiência de educadores e professores leitores, lendo em voz alta, fomentando a leitura individual e a construção coletiva de sentido. Para além de tudo o que já as habita, e que talvez até cause demasiado ruído (o início do ano letivo é uma excelente ocasião para "curar" os espaços educativos), as salas de aula têm que ter livros, muitos e bons. Com os livros certos os docentes conseguirão chegar até aos alunos mais relutantes.
 
Se os diretores e as suas equipas assumirem a leitura e a escrita como competências transversais fulcrais para a aprendizagem ao longo da vida, que sustentam a curiosidade, a imaginação e a criação de conhecimento em qualquer área, saberão mobilizar toda a escola em torno de um plano leitor anual ou plurianual. Saberão apoiar os professores bibliotecários e os restantes docentes, atribuindo-lhes os recursos (financeiros, humanos, formativos) necessários para que a leitura e a escrita não sejam reduzidas a provas, concursos, ou espetáculos, mas antes adquiram a dignificação plena e a alegria contagiante que advém da prática quotidiana, do esforço de aprender, do prazer de ler e compreender, e da consequente evolução e melhoria por parte dos alunos a todos os níveis.
 
Se as direções-gerais (e o ministério da educação) apoiarem verdadeiramente as escolas, os seus diretores e todos os docentes, saberão fazer cada vez mais um trabalho de acompanhamento e supervisão pedagógica em detrimento da fiscalização burocrática.

 Se as autarquias investirem seriamente na cultura e na educação, saberão apoiar as escolas e as famílias, dedicando uma boa parte do seu orçamento a programas municipais de promoção do livro e da leitura em parceria com as escolas, outras instituições culturais e, obviamente, o Plano Nacional de Leitura. Valorizarão os mediadores das bibliotecas municipais, confiando no seu trabalho e na sua experiência. Darão o seu exemplo e não meramente a sua presença.

Tudo isto é possível. Uma escola leitora, inspiradora, para todos, não é uma utopia. Para que tal aconteça, cada um de nós (famílias, docentes, funcionários, diretores e suas equipas, direções gerais, autarquias, etc) deverá deixar de lado as críticas, as queixas, as desculpas e fazer a sua parte. Ninguém se pode excluir ou isentar. Basta de palavras. É hora de gestos concretos. Aproveitem este início limpo, este ano inteiro por escrever. Ajam, agora!

Atenciosamente,
Paula Cusati
mediadora de leitura
 
 
 (1) Síntese do Relatório do Grupo de Peritos de Alto Nível sobre Literacia da UE (Set. 2012): http://www.eli-net.eu/fileadmin/ELINET/Redaktion/user_upload/LITERACY_SUMMARY_PT.PDF

(2) Informações do IAVE sobre o Programme for International Student Assessment (PISA): http://iave.pt/np4/12.html