quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Andarilhando!

Vou a caminho! Esperam-me quatro dias maravilhosos de palavras, imagens, histórias, livros, encontros, aprendizagens, pessoas inspiradoras e muitos abraços.


Eu estarei hoje, 25 de Agosto, às 18:30, com a Sofia Paulino a apresentar o livro As Contadeiras de Histórias, da editora Simon´s Books. Amanhã, dia 26, às 19:30, irei CONTAR COM LIVRO NA MÃO.
O programa completo (que compreende 25 h de formação + I Festival de Contos do Mundo)  aqui e acolá. Para além disso, há exposições, instalações e o mercado livreiro. Razões de sobra para rumar a Beja.
Há dois anos foi assim .

sábado, 16 de julho de 2016

Férias Grandes III

 
 

july 12

soon we will go to the beach
where we will swim
and eat plums and peanut butter sandwiches
and we will think to ourselves
as we eat
on our blankett in the sand
that nothing in the world
could possibly be more delicious
than those plums
and those peanut butter sandwiches
a little bit salty
and warm from the sun


When green becomes tomatoes Poems for All Seasons, by Julie Fogliano, pictures by Julie Morstad, Roaring Brook Press.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

As Guardas: Guardiãs de Tesouros XXIII

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui (quase) todas as semanas uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.

 
The Orange Book
Richard McGuire
Corraini, 2008

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Férias Grandes II

 
 
Quando eu era criança, as férias grandes eram um tempo mágico e gigante.
O dia começava com um pequeno-almoço demorado, que incluía a fruta que eu ia apanhar ao damasqueiro que ficava mesmo em frente à porta de casa ou à figueira um pouco mais afastada, perto do tanque. Até à hora do almoço havia tempo para passear pela ribeira, com os pés descalços, por entre as pedras e a pouca água que ainda teimava em correr. Esperávamos, em religioso silêncio, que as rãs recomeçassem a coaxar para descobrirmos os seus esconderijos e podermos vê-las, cada qual diferente, nos seus lindos verdes.
À tarde, o calor impedia-nos de brincar lá fora. Era a hora da sesta, sinónimo, para mim e para a minha irmã, de horas a ler no silêncio da casa adormecida. Quantos livros requisitávamos uma vez por semana na biblioteca da vila. Vinham connosco para casa em felizes sacos pesados. Depois do lanche havia as corridas de bicicleta, os mergulhos no tanque, as brincadeiras no sótão e a visita à figueira centenária que era casa, cavalo e baloiço.
Nas noites mais quentes, o meu pai trazia uma manta grande, as almofadas, e deitávamo-nos lá fora, de barriga para o ar, a conversar e a ver as estrelas, à espera que a casa arrefecesse. Era tão bom estarmos, assim, juntos. Como se aquele tempo não tivesse fim.


terça-feira, 14 de junho de 2016

Férias Grandes

As férias grandes começaram esta semana. Os dias deixaram de ser condicionados pelo ritmo da escola, com aulas, testes e TPCs. É tempo de descansar, brincar, viajar, explorar, ou, simplesmente, não fazer nada. Um tempo aventuroso, longo e livre, como pertence ao Verão.
As férias grandes são também protagonistas de muita da literatura infantil e juvenil, pelas inúmeras possibilidades que nos oferecem os dias contemporaneamente vazios de compromissos e cheios de mistério e surpresas. Deixo-vos dois bons exemplos:
 
 
Um pequeno livro, de capa mole, que nos fala dos sabores, sons e cheiros desta estação do ano, que nos leva a saborear os dias compridos e a pensar no que é para nós, leitores, sinónimo de Verão. É também um convite a explorar e a querer saber mais. Quem é que não fica com curiosidade em descobrir as zínias e as sécias, de que hoje em dia quase não se ouve falar? 
 
 
 
 
 
 
A segunda sugestão é um livro sem palavras:
 
 
Um dia na praia, de Bernardo Carvalho, Planeta Tangerina
 
Uma história muito bem contada pelas ilustrações de Bernardo Carvalho, que levará certamente a diálogos muito interessantes à medida que pais e filhos vão tecendo hipóteses. Um livro para ler devagar, com atenção, esticando o mistério de cada dupla página.
 
 
Estes são alguns dos livros que levarei para o último encontro desta temporada das Conversas Pequenas, dedicado precisamente às "Férias Grandes"  e que terá lugar na próxima semana.
 
Quanto ao blogue, iremos continuar a viajar pelos livros, com atualizações regulares. Até lá, divirtam-se, relaxem e apreciem a maravilha de cada um destes dias felizes, intermináveis e inesquecíveis.

terça-feira, 24 de maio de 2016

A cabeça no ar

As melhores coisas são feitas no ar,
andar nas nuvens, devanear,
voar, sonhar, falar no ar,
fazer castelos no ar
e ir lá para dentro morar,
ou então estar em qualquer sítio só a estar,
a respiração a respirar,
o coração a pulsar,
o sangue a sangrar,
a imaginação a imaginar,
os olhos a olhar
                         (embora sem ver),
e ficar muito quietinho a ser,
os tecidos a tecer,
os cabelos a crescer,
e isto tudo a saber
que isto tudo está a acontecer!
As coisas melhores são de ar,
só é preciso abrir os olhos e olhar,
basta respirar.

                 Manuel António Pina, in O Pássaro da Cabeça e mais versos para crianças.

sábado, 14 de maio de 2016

ENCONTRAR O TEMPO DA INFÂNCIA

 
 
 
No próximo sábado, eu e a Susana Cheis, psicóloga, iremos falar de como, neste tempo frenético, repleto de ecrãs, atividades escolares e extracurriculares, é importante desacelerar e escolher compreender e valorizar, em família e na sala de aula, a essência de cada criança: as suas características, ritmos, talentos e ensinamentos preciosos. 

Falaremos de como a infância de cada pessoa condiciona a sua vida futura, de como é importante criar um ambiente familiar e escolar sem estereótipos e preconceitos, onde a criança se sinta segura e livre para ver e ler com todos os sentidos, explorar, descobrir, decidir, fazer e criar. De tudo isto e muito mais!

quarta-feira, 11 de maio de 2016

AS HISTÓRIAS


"... as histórias são coisas vivas, criaturas que se mexem e que se desenvolvem na imaginação do autor e do leitor. Devem ser consistentes e palpáveis, tal como a terra, e devem possuir profundezas desconhecidas fluídas, tal como o mar. "
                                            David Almond, Uma criatura feita de mar, Editorial Presença.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

As Guardas: Guardiãs de Tesouros XXII

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui (quase) todas as semanas uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.

 
 
 
O Livro da Tila
Matilde Rosa Araújo e Madalena Matoso (ilustrações)
Caminho, 2010.
 

sábado, 16 de abril de 2016

Dias de Chuva

Após um Inverno meigo, pelo menos aqui pelo Alentejo, a Primavera tarda em chegar e Abril parece querer fazer jus ao provérbio, trazendo águas mil. Lembro-me de que quando era criança, nos dias chuvosos, adorava calçar as botas de borracha e saltitar nas poças de água, olhar para as nuvens e sentir as gotas de chuva a caírem nos meus olhos, ir à ribeira para ver se a água tinha galgado a pequena ponte perto da casa dos meus avós, ou esperar pacientemente para ver todos os bichinhos que vinham espreitar: caracóis, lesmas, rãs e sapos.

Un giorno di pioggia
 
Bem sei que os dias de chuva equivalem muitas vezes a crianças aborrecidas e a pais enervados... Mas, mesmo dentro de casa e sem ecrãs, há tanto que podemos fazer para nos divertirmos!  
Uma excelente ideia é irmos ao armário buscar a CAIXA PARA DIAS DE CHUVA. Lá dentro as crianças poderão encontrar:
- baralhos de cartas para jogar em família ou para construir castelos;
- dominó;
- tabuleiro e peças de xadrez ou damas;
- mikado;
- jogo da glória;
- velhos álbuns de fotografias da família;
- jornais velhos para fazer aviões ou barcos de papel;
- poemas sobre a chuva para ler em voz alta e aprender de cor (como este de António Mota ou um pedaço de outro da Luísa Ducla Soares)
- bons livros (por exemplo: Um dia, um guarda-chuva, de Davide Calì e Valerio Vidali, ed. Planeta Tangerina)
- e tudo aquilo que acharem melhor para os vossos filhos.

Enfim, coisas simples para brincarmos juntos e, por isso, tão importantes.  Certamente tornarão mais felizes os dias de chuva.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

As Guardas: Guardiãs de Tesouros XXI

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui todas as semanas uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.

 
 
 
A Baleia
Benji Davies
Orfeu Negro, 2016

domingo, 3 de abril de 2016

As Guardas: Guardiãs de Tesouros XX

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui (quase) todas as semanas uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.

 
 
Um dia, um guarda-chuva...
Davide Calì e Valerio Vidali
Planeta Tangerina
 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O tempo na literatura para a infância

O tempo é a substância da literatura, a sua essência e tecido. Desde o início, o homem foi tecendo o real e o maravilhoso, contando-se, construindo-se e rasgando as fronteiras dos dias e da própria vida.
 Todas as histórias começam por "Era uma vez...", porta mágica para um tempo outro, em que os nossos olhos, coração e mente são só para as palavras que acontecem à nossa frente.


                       Antes Depois, Anne-Margot Ramstein e Matthias Aregui, Gatafunho


E se a palavra contada / escutada é tempo pleno, a palavra escrita / lida é tempo maior, permanentemente vivificado a cada leitura.
"Escrever representa uma das formas de desafio à morte: e ler, também, é permanecer. Qualquer forma de escrita, qualquer forma de leitura"
                                                                                Matilde Rosa Araújo in A Estrada Fascinante, Livros Horizonte 


Para ler em profundidade, é preciso tempo. Um tempo lento. Tema que me é muito caro e de que já falei aqui.
"A importância do caminho, portanto, não da chegada. Do tempo do caminho, que deve ser lento, não só para aceitar o passo de quem é mais fraco, mas porque seguindo a curiosidade e as emoções cada um possa aventurar-se, descobrir outras pistas, fazer desvios, voltar atrás, trocar pensamentos e sentimentos, contruir relações. E amanhã, exatamente por ter realizado uma caminhada deste tipo, possa não esquecer o que aprendeu"
                                          Fiorella Farinelli, no prefácio ao livro de Gianfranco Zavalloni, La Pedagogia della Lumaca
 

Enquanto mediadores, creio que é neste sentido que devemos orientar as atividades e projetos que concebemos. A mediação leitora significa semear, esperar, dar tempo, atentar, confiar e ir recolhendo, sem pressa.


                                            Dopo, Laurent Moreau, orecchio acerbo

Daqui partem as minhas reflexões acerca do Tempo na Literatura para a Infância, tema da sessão para mediadores que irei dinamizar hoje à tardinha no Centro do Livro Infantil da Biblioteca Municipal de Beja, a convite da Dra Cristina Taquelim, que pensou e conduziu de forma extraordinária, a 25 de Novembro de 2015, o primeiro destes ricos, inspiradores e gratuitos encontros, sempre na última quarta-feira do mês, dedicado à Guerra na Literatura para a Infância. Levo comigo uma mala cheia de livros que contam o tempo. E muitos mais estarão à nossa espera!


                                                        

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Tempo Novo

O ano novo entrou de mansinho, como lhe compete. A agenda nova começou a ser preenchida, com calma, pelos nossos diferentes afazeres. Houve tempo para saborear os dias de chuva, para abrir o coração a arco-íris do tamanho do mundo, para nos aninharmos nas noites frias ao redor da lareira. Houve tempo para avaliar projetos, afinar metodologias, repensar o trabalho e estabelecer mais uns bons propósitos.
Um ano inteiro pela frente! A esperança feita tempo, um tempo novo. Doze meses para sentir,  descobrir, explorar, conhecer, ouvir e contar. 366 dias que quero guardar. Para além do diário, há um livro especial que tem sido meu companheiro nessa tarefa tão rica:
 
 
Um livro que começa no inverno, quando, apenas aparentemente, tudo parece adormecido e que nos leva a olhar com atenção para a intensa atividade deste período do ano, convidando-nos a ir lá para fora descobrir os fenómenos sazonais da natureza. Estou, neste momento, a aprender a identificar as nuvens e o tempo que trazem:
 
 

 
Um livro / agenda que vem complementar o Lá Fora - Guia para descobrir a natureza, editado pelo Planeta Tangerina em 2014.
 
 
 
Bom ano novo! Boas leituras e boas descobertas!

 
 
 
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Manuel da Fonseca


Manuel da Fonseca, escritor da minha cidade, Santiago do Cacém, faria hoje 104 anos. É e será sempre um dos meus autores preferidos. Foi, por isso, um privilégio conceber a programação anual da Biblioteca Municipal com o seu nome no centenário do seu nascimento, em 2011.  De todas as iniciativas que levámos a cabo, a mais significativa, a meu ver, foi a VIAGEM POR CERROMAIOR, o passeio histórico-literário pensado e dinamizado com o Gentil Cesário. Passeio esse que terminava sempre na colina do castelo com a leitura do poema

Maltês

Em Cerromaior nasci.

Depois, quando as forças deram
para andar, desci ao largo.
Depois, tomei os caminhos
que havia e mais outros que
depois desses eu sabia.

E tanto já me afastei
dos caminhos que fizeram,
que de vós todos perdido
vou descobrindo esses outros
caminhos que só eu sei.

Manuel da Fonseca, in Planície, 1941

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Rio de Contos: onde irão estas histórias desaguar?



No passado fim-de-semana, a Caparica e a Trafaria  receberam um Rio de Contos. O encontro de narração oral de Almada, muito bem pensado e organizado pela Laredo Associação Cultural e pela Câmara Municipal de Almada, saiu das habituais paredes onde se contam histórias. Foi uma honra contar ao lado da Cláudia Sousa (na Biblioteca Maria Lamas), das contadoras da Rede Municipal de Bibliotecas de Almada, (na Biblioteca da Trafaria) e da Ana Sofia Paiva e do Miguel Horta (no Mercado da Trafaria), no dia 26, sempre com o olhar cúmplice da Maria José Vitorino.
 

 
No jornal Público, o Miguel explica com sabedoria os alicerces deste encontro. Leiam com atenção e irão entender a felicidade de quem lá contou e ouviu histórias. Muito grata, guardarei na memória os contos escutados, os sorrisos e os abraços e a certeza de que as palavras desses dias desaguarão em mundos melhores.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

As Guardas: Guardiãs de Tesouros XIX

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui todas as semanas uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.

 
 
 
O lobo não morde
Emily Gravett (trad. Carla Maia de Almeida)
Livros Horizonte, 2011

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Oficina de Leitura e Escrita


Nem sempre a escola consegue dar aos nossos filhos as ferramentas necessárias para compreenderem plenamente e elaborarem com correção diferentes tipos de textos. Para além disso, em sala de aula, a literatura é frequentemente reduzida à sua análise esquemática, sem o entusiasmo e o deslumbramento pelas palavras. Para grande parte dos alunos, ler enfada e a escrita provoca angústia. Por sua vez, quem gosta de ler e quer aprender a escrever melhor, nem sempre encontra na escola o estímulo da atenção e do trabalho relativamente ao próprio texto, na sua melhoria, até atingir o grau de beleza e expressividade pretendido.
 
Encarar a leitura e a escrita como um prazer, mas, sobretudo, como uma forma de sermos plenamente nós, com horizontes muito mais alargados, é um dos objetivos desta oficina. Pretende-se que este seja sempre um espaço de criatividade, de crescimento, de reflexão crítica. Cada aluno é como um artesão que trabalha com outros numa oficina de palavras. Não são esquecidas as metas curriculares de Educação Literária de cada ano de escolaridade, porém, a Oficina não replica o ensino da língua e da literatura tal como acontece na escola. Nunca há fichas!

 
Fornecendo sempre modelos de textos de autores, portugueses e estrangeiros, criteriosamente selecionados e adequados à maturidade leitora de cada grupo, criamos textos individuais, partilhando-os, discutindo-os, sem juízos de valor, mas com a clara noção do que pode ser melhorado e porquê. Assim, fica registado o processo de construção de cada texto, desde a ideia inicial até à pequena obra finalizada, passando por todas as reflexões, alterações e correções. A leitura leva à escrita e viceversa, num ciclo harmonioso e frutífero. As Oficinas acontecem semanalmente e estão pensadas como um todo articulado, de análise e progressão nas competências de leitura e escrita. Para além disso, cada aluno pode levar para ler em casa o livro que quiser de entre os muitos disponíveis na biblioteca do projeto. Livros esses escolhidos pela qualidade dos seus textos e ilustrações, pela sua variedade, pela representatividade dos melhores autores de literatura infantil e juvenil, e pela possibilidade de expansão dos textos e temas tratados na Oficina.

 
Retomo em Outubro a Oficina de Leitura e Escrita, confiante e feliz pelas provas dadas em 2014/2015: os alunos que a frequentaram regularmente leram bastante mais do que até então e, sobretudo, passaram a encarar o processo de escrita de forma mais consciente e decidida, mas, contemporaneamente, mais descontraída. A gradual apropriação da escrita enquanto mecanismo de questionamento e reflexão sobre si próprio, os outros e o mundo, fez com que os textos produzidos se tornassem cada vez mais fluídos e relevantes.

NOTA: A Oficina de Leitura e Escrita é também itinerante, podendo ser realizada de forma pontual em escolas (1º e 2º CEB e Ensino Secundário) e bibliotecas, ou como formação (para a implementação de um projeto continuado semelhante, com objetivos idênticos, adaptado ao contexto de cada instituição).

Informações: paula.cusati@gmail.com

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Os 10 direitos inalienáveis do leitor


Continuo com Pennac a reflexão sobre a leitura e sua promoção, partindo do ponto onde terminei com Rodari:

" O verbo ler não suporta o imperativo. É uma aversão que compartilha com outros: o verbo "amar"... o verbo "sonhar"...

Embora sejam sobejamente conhecidos, creio que nunca é demais repetir os seus


DIREITOS INALIENÁVEIS DO LEITOR

1. O direito de não ler
2. O direito de saltar páginas
3. O direito de não acabar um livro
4. O direito de reler
5. O direito de ler não importa o quê
6. O direito de amar os "heróis" dos romances
7. O direito de ler não importa onde
8. O direito de saltar de livro em livro
9. O direito de ler em voz alta
10. O direito de não falar do que se leu.

In Daniel Pennac, Como um romance, Edições Asa


Mas o melhor é reler todo o livro, não acham?

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Nove modos de ensinar as crianças a odiar a leitura!


Ainda a propósito de listas, lembro Gianni Rodari, professor, jornalista e escritor italiano. Autor de uma extensa e magnífica obra (praticamente desconhecida em Portugal) e vencedor do Prémio Andersen em 1970, descreve, com a sua característica ironia, a maneira como os adultos contribuem para o ódio à leitura neste texto de 1966 (do qual traduzi apenas alguns trechos), na esperança de que a leitura da sua listagem produza o desejado antídoto:


NOVE MODOS DE ENSINAR AS CRIANÇAS A ODIAR A LEITURA

1. Apresentar o livro como uma alternativa à TV.
(...) Psicologicamente, não me parece que negar um prazer ou uma atividade agradável (ou que se sente como tal, o que vem dar no mesmo) seja o modo ideal de fazer com que amem outra atividade: será, isso sim, a maneira de lançar sobre esta última uma sombra de aborrecimento e de castigo.

2. Apresentar o livro como uma alternativa à banda desenhada.
(...) na minha opinião, não há uma relação de causa-efeito entre a paixão pela banda desenhada e a ausência de interesse pelas "boas leituras".

3. Dizer às crianças de hoje que as crianças de antigamente liam mais.
O adulto tem frequentemente a tentação (e raramente lhe resiste) de louvar "o seu tempo", especialmente o tempo da sua infância que a sua memória pinta com cores alegres e apresenta como uma estação ideal. A memória é uma bajuladora e uma aldrabona de primeira ordem, mas é difícil apercebermo-nos disso. (...)

4. Pensar que as crianças têm demasiadas distrações.
(...) isso não depende do número e da qualidade das "distrações" (ou seja, das ocupações mais livres, e, por isso, mais amadas, e, por isso, mais ricas em termos de eficácia educativa), depende do lugar que o livro ocupa na vida do país, da sociedade, da família, da escola.

5. Atribuir às crianças a culpa de não gostarem de ler.
(...) Se procurarmos "porquês" menos cómodos do que a acusação prepotente dirigida às crianças, encontramos as culpas dos pais: há casas onde nunca entra um livro, existem milhares de licenciados sem biblioteca, há tantos pais que nem sequer lêem o jornal, e depois admiram-se de os filhos fazerem o que eles fazem. Há culpas públicas: da escola e do Estado; e existem as culpas da nossa cultura (...).

6. Transformar o livro num instrumento de tortura.
(...) O livro que entra na escola sob o esquema do aproveitamento escolar produz resultados meramente escolares: não se torna algo de belo e bom, de que se sente necessidade, mas uma coisa que serve ao professor para dar uma nota. A escola como tribunal, em vez de ser vida.
Assim, evita-se a dificuldade principal, que é a de fazer nascer a necessidade da leitura, que é uma necessidade cultural, não um instinto, como comer, beber e dormir, não algo da natureza."

7. Recusar-se a ler para a criança.
A voz da mãe, do pai (do professor) tem uma função insubstituível. Todos obedecemos a esta lei, sem o saber, quando contamos uma história à criança que ainda não sabe ler, criando, através da história aquele "léxico familiar" de que fala Natalia Ginzburg, no qual a intimidade, a confiança, a comunhão entre pais e filhos se exprimem de modo único e irrepetível. (...)
A história escrita é já o mundo: já não é o "léxico familiar", é contacto com uma realidade mais vasta, conhecida através da fantasia, que nas crianças é como um terceiro olho (...).

8. Não oferecer uma escolha suficiente.
(...) a pequena biblioteca, pessoal ou coletiva, é indispensável (...) para que possa suscitar curiosidades diversas, satisfazer ou estimular diferentes interesses, responder às mudanças de humor, à evolução da personalidade, da formação cultural, da informação. (...)

9. Mandar ler.
(...) É indubitavelmente o mais eficaz se queremos que as crianças aprendam a odiar a leitura. Garantido a cem por cento. Facílimo de aplicar.
(...) uma lição que não esquecerá, ou seja, ler é uma daquelas coisas que temos que fazer porque os adultos mandam, um daqueles males inevitáveis relacionados com o exercício da autoridade por parte dos adultos. Mas assim que nós formos grandes também, assim que formos adultos, assim que formos livres...
Visto a posteriori , isto é, pelo número de adultos legalmente alfabetizados que, assim que saem da menoridade, não lêem mais nenhuma linha, este deve ser, de todos os sistemas, o mais difuso (...)

in Gianni Rodari, Scuola di Fantasia, Einaudi, 2014