sexta-feira, 1 de julho de 2016

Férias Grandes II

 
 
Quando eu era criança, as férias grandes eram um tempo mágico e gigante.
O dia começava com um pequeno-almoço demorado, que incluía a fruta que eu ia apanhar ao damasqueiro que ficava mesmo em frente à porta de casa ou à figueira um pouco mais afastada, perto do tanque. Até à hora do almoço havia tempo para passear pela ribeira, com os pés descalços, por entre as pedras e a pouca água que ainda teimava em correr. Esperávamos, em religioso silêncio, que as rãs recomeçassem a coaxar para descobrirmos os seus esconderijos e podermos vê-las, cada qual diferente, nos seus lindos verdes.
À tarde, o calor impedia-nos de brincar lá fora. Era a hora da sesta, sinónimo, para mim e para a minha irmã, de horas a ler no silêncio da casa adormecida. Quantos livros requisitávamos uma vez por semana na biblioteca da vila. Vinham connosco para casa em felizes sacos pesados. Depois do lanche havia as corridas de bicicleta, os mergulhos no tanque, as brincadeiras no sótão e a visita à figueira centenária que era casa, cavalo e baloiço.
Nas noites mais quentes, o meu pai trazia uma manta grande, as almofadas, e deitávamo-nos lá fora, de barriga para o ar, a conversar e a ver as estrelas, à espera que a casa arrefecesse. Era tão bom estarmos, assim, juntos. Como se aquele tempo não tivesse fim.


terça-feira, 14 de junho de 2016

Férias Grandes

As férias grandes começaram esta semana. Os dias deixaram de ser condicionados pelo ritmo da escola, com aulas, testes e TPCs. É tempo de descansar, brincar, viajar, explorar, ou, simplesmente, não fazer nada. Um tempo aventuroso, longo e livre, como pertence ao Verão.
As férias grandes são também protagonistas de muita da literatura infantil e juvenil, pelas inúmeras possibilidades que nos oferecem os dias contemporaneamente vazios de compromissos e cheios de mistério e surpresas. Deixo-vos dois bons exemplos:
 
 
Um pequeno livro, de capa mole, que nos fala dos sabores, sons e cheiros desta estação do ano, que nos leva a saborear os dias compridos e a pensar no que é para nós, leitores, sinónimo de Verão. É também um convite a explorar e a querer saber mais. Quem é que não fica com curiosidade em descobrir as zínias e as sécias, de que hoje em dia quase não se ouve falar? 
 
 
 
 
 
 
A segunda sugestão é um livro sem palavras:
 
 
Um dia na praia, de Bernardo Carvalho, Planeta Tangerina
 
Uma história muito bem contada pelas ilustrações de Bernardo Carvalho, que levará certamente a diálogos muito interessantes à medida que pais e filhos vão tecendo hipóteses. Um livro para ler devagar, com atenção, esticando o mistério de cada dupla página.
 
 
Estes são alguns dos livros que levarei para o último encontro desta temporada das Conversas Pequenas, dedicado precisamente às "Férias Grandes"  e que terá lugar na próxima semana.
 
Quanto ao blogue, iremos continuar a viajar pelos livros, com atualizações regulares. Até lá, divirtam-se, relaxem e apreciem a maravilha de cada um destes dias felizes, intermináveis e inesquecíveis.

terça-feira, 24 de maio de 2016

A cabeça no ar

As melhores coisas são feitas no ar,
andar nas nuvens, devanear,
voar, sonhar, falar no ar,
fazer castelos no ar
e ir lá para dentro morar,
ou então estar em qualquer sítio só a estar,
a respiração a respirar,
o coração a pulsar,
o sangue a sangrar,
a imaginação a imaginar,
os olhos a olhar
                         (embora sem ver),
e ficar muito quietinho a ser,
os tecidos a tecer,
os cabelos a crescer,
e isto tudo a saber
que isto tudo está a acontecer!
As coisas melhores são de ar,
só é preciso abrir os olhos e olhar,
basta respirar.

                 Manuel António Pina, in O Pássaro da Cabeça e mais versos para crianças.

sábado, 14 de maio de 2016

ENCONTRAR O TEMPO DA INFÂNCIA

 
 
 
No próximo sábado, eu e a Susana Cheis, psicóloga, iremos falar de como, neste tempo frenético, repleto de ecrãs, atividades escolares e extracurriculares, é importante desacelerar e escolher compreender e valorizar, em família e na sala de aula, a essência de cada criança: as suas características, ritmos, talentos e ensinamentos preciosos. 

Falaremos de como a infância de cada pessoa condiciona a sua vida futura, de como é importante criar um ambiente familiar e escolar sem estereótipos e preconceitos, onde a criança se sinta segura e livre para ver e ler com todos os sentidos, explorar, descobrir, decidir, fazer e criar. De tudo isto e muito mais!

quarta-feira, 11 de maio de 2016

AS HISTÓRIAS


"... as histórias são coisas vivas, criaturas que se mexem e que se desenvolvem na imaginação do autor e do leitor. Devem ser consistentes e palpáveis, tal como a terra, e devem possuir profundezas desconhecidas fluídas, tal como o mar. "
                                            David Almond, Uma criatura feita de mar, Editorial Presença.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

As Guardas: Guardiãs de Tesouros XXII

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui (quase) todas as semanas uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.

 
 
 
O Livro da Tila
Matilde Rosa Araújo e Madalena Matoso (ilustrações)
Caminho, 2010.
 

sábado, 16 de abril de 2016

Dias de Chuva

Após um Inverno meigo, pelo menos aqui pelo Alentejo, a Primavera tarda em chegar e Abril parece querer fazer jus ao provérbio, trazendo águas mil. Lembro-me de que quando era criança, nos dias chuvosos, adorava calçar as botas de borracha e saltitar nas poças de água, olhar para as nuvens e sentir as gotas de chuva a caírem nos meus olhos, ir à ribeira para ver se a água tinha galgado a pequena ponte perto da casa dos meus avós, ou esperar pacientemente para ver todos os bichinhos que vinham espreitar: caracóis, lesmas, rãs e sapos.

Un giorno di pioggia
 
Bem sei que os dias de chuva equivalem muitas vezes a crianças aborrecidas e a pais enervados... Mas, mesmo dentro de casa e sem ecrãs, há tanto que podemos fazer para nos divertirmos!  
Uma excelente ideia é irmos ao armário buscar a CAIXA PARA DIAS DE CHUVA. Lá dentro as crianças poderão encontrar:
- baralhos de cartas para jogar em família ou para construir castelos;
- dominó;
- tabuleiro e peças de xadrez ou damas;
- mikado;
- jogo da glória;
- velhos álbuns de fotografias da família;
- jornais velhos para fazer aviões ou barcos de papel;
- poemas sobre a chuva para ler em voz alta e aprender de cor (como este de António Mota ou um pedaço de outro da Luísa Ducla Soares)
- bons livros (por exemplo: Um dia, um guarda-chuva, de Davide Calì e Valerio Vidali, ed. Planeta Tangerina)
- e tudo aquilo que acharem melhor para os vossos filhos.

Enfim, coisas simples para brincarmos juntos e, por isso, tão importantes.  Certamente tornarão mais felizes os dias de chuva.