quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O tempo na literatura para a infância

O tempo é a substância da literatura, a sua essência e tecido. Desde o início, o homem foi tecendo o real e o maravilhoso, contando-se, construindo-se e rasgando as fronteiras dos dias e da própria vida.
 Todas as histórias começam por "Era uma vez...", porta mágica para um tempo outro, em que os nossos olhos, coração e mente são só para as palavras que acontecem à nossa frente.


                       Antes Depois, Anne-Margot Ramstein e Matthias Aregui, Gatafunho


E se a palavra contada / escutada é tempo pleno, a palavra escrita / lida é tempo maior, permanentemente vivificado a cada leitura.
"Escrever representa uma das formas de desafio à morte: e ler, também, é permanecer. Qualquer forma de escrita, qualquer forma de leitura"
                                                                                Matilde Rosa Araújo in A Estrada Fascinante, Livros Horizonte 


Para ler em profundidade, é preciso tempo. Um tempo lento. Tema que me é muito caro e de que já falei aqui.
"A importância do caminho, portanto, não da chegada. Do tempo do caminho, que deve ser lento, não só para aceitar o passo de quem é mais fraco, mas porque seguindo a curiosidade e as emoções cada um possa aventurar-se, descobrir outras pistas, fazer desvios, voltar atrás, trocar pensamentos e sentimentos, contruir relações. E amanhã, exatamente por ter realizado uma caminhada deste tipo, possa não esquecer o que aprendeu"
                                          Fiorella Farinelli, no prefácio ao livro de Gianfranco Zavalloni, La Pedagogia della Lumaca
 

Enquanto mediadores, creio que é neste sentido que devemos orientar as atividades e projetos que concebemos. A mediação leitora significa semear, esperar, dar tempo, atentar, confiar e ir recolhendo, sem pressa.


                                            Dopo, Laurent Moreau, orecchio acerbo

Daqui partem as minhas reflexões acerca do Tempo na Literatura para a Infância, tema da sessão para mediadores que irei dinamizar hoje à tardinha no Centro do Livro Infantil da Biblioteca Municipal de Beja, a convite da Dra Cristina Taquelim, que pensou e conduziu de forma extraordinária, a 25 de Novembro de 2015, o primeiro destes ricos, inspiradores e gratuitos encontros, sempre na última quarta-feira do mês, dedicado à Guerra na Literatura para a Infância. Levo comigo uma mala cheia de livros que contam o tempo. E muitos mais estarão à nossa espera!


                                                        

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Tempo Novo

O ano novo entrou de mansinho, como lhe compete. A agenda nova começou a ser preenchida, com calma, pelos nossos diferentes afazeres. Houve tempo para saborear os dias de chuva, para abrir o coração a arco-íris do tamanho do mundo, para nos aninharmos nas noites frias ao redor da lareira. Houve tempo para avaliar projetos, afinar metodologias, repensar o trabalho e estabelecer mais uns bons propósitos.
Um ano inteiro pela frente! A esperança feita tempo, um tempo novo. Doze meses para sentir,  descobrir, explorar, conhecer, ouvir e contar. 366 dias que quero guardar. Para além do diário, há um livro especial que tem sido meu companheiro nessa tarefa tão rica:
 
 
Um livro que começa no inverno, quando, apenas aparentemente, tudo parece adormecido e que nos leva a olhar com atenção para a intensa atividade deste período do ano, convidando-nos a ir lá para fora descobrir os fenómenos sazonais da natureza. Estou, neste momento, a aprender a identificar as nuvens e o tempo que trazem:
 
 

 
Um livro / agenda que vem complementar o Lá Fora - Guia para descobrir a natureza, editado pelo Planeta Tangerina em 2014.
 
 
 
Bom ano novo! Boas leituras e boas descobertas!

 
 
 
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Manuel da Fonseca


Manuel da Fonseca, escritor da minha cidade, Santiago do Cacém, faria hoje 104 anos. É e será sempre um dos meus autores preferidos. Foi, por isso, um privilégio conceber a programação anual da Biblioteca Municipal com o seu nome no centenário do seu nascimento, em 2011.  De todas as iniciativas que levámos a cabo, a mais significativa, a meu ver, foi a VIAGEM POR CERROMAIOR, o passeio histórico-literário pensado e dinamizado com o Gentil Cesário. Passeio esse que terminava sempre na colina do castelo com a leitura do poema

Maltês

Em Cerromaior nasci.

Depois, quando as forças deram
para andar, desci ao largo.
Depois, tomei os caminhos
que havia e mais outros que
depois desses eu sabia.

E tanto já me afastei
dos caminhos que fizeram,
que de vós todos perdido
vou descobrindo esses outros
caminhos que só eu sei.

Manuel da Fonseca, in Planície, 1941

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Rio de Contos: onde irão estas histórias desaguar?



No passado fim-de-semana, a Caparica e a Trafaria  receberam um Rio de Contos. O encontro de narração oral de Almada, muito bem pensado e organizado pela Laredo Associação Cultural e pela Câmara Municipal de Almada, saiu das habituais paredes onde se contam histórias. Foi uma honra contar ao lado da Cláudia Sousa (na Biblioteca Maria Lamas), das contadoras da Rede Municipal de Bibliotecas de Almada, (na Biblioteca da Trafaria) e da Ana Sofia Paiva e do Miguel Horta (no Mercado da Trafaria), no dia 26, sempre com o olhar cúmplice da Maria José Vitorino.
 

 
No jornal Público, o Miguel explica com sabedoria os alicerces deste encontro. Leiam com atenção e irão entender a felicidade de quem lá contou e ouviu histórias. Muito grata, guardarei na memória os contos escutados, os sorrisos e os abraços e a certeza de que as palavras desses dias desaguarão em mundos melhores.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

As Guardas: Guardiãs de Tesouros XIX

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui todas as semanas uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.

 
 
 
O lobo não morde
Emily Gravett (trad. Carla Maia de Almeida)
Livros Horizonte, 2011

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Oficina de Leitura e Escrita


Nem sempre a escola consegue dar aos nossos filhos as ferramentas necessárias para compreenderem plenamente e elaborarem com correção diferentes tipos de textos. Para além disso, em sala de aula, a literatura é frequentemente reduzida à sua análise esquemática, sem o entusiasmo e o deslumbramento pelas palavras. Para grande parte dos alunos, ler enfada e a escrita provoca angústia. Por sua vez, quem gosta de ler e quer aprender a escrever melhor, nem sempre encontra na escola o estímulo da atenção e do trabalho relativamente ao próprio texto, na sua melhoria, até atingir o grau de beleza e expressividade pretendido.
 
Encarar a leitura e a escrita como um prazer, mas, sobretudo, como uma forma de sermos plenamente nós, com horizontes muito mais alargados, é um dos objetivos desta oficina. Pretende-se que este seja sempre um espaço de criatividade, de crescimento, de reflexão crítica. Cada aluno é como um artesão que trabalha com outros numa oficina de palavras. Não são esquecidas as metas curriculares de Educação Literária de cada ano de escolaridade, porém, a Oficina não replica o ensino da língua e da literatura tal como acontece na escola. Nunca há fichas!

 
Fornecendo sempre modelos de textos de autores, portugueses e estrangeiros, criteriosamente selecionados e adequados à maturidade leitora de cada grupo, criamos textos individuais, partilhando-os, discutindo-os, sem juízos de valor, mas com a clara noção do que pode ser melhorado e porquê. Assim, fica registado o processo de construção de cada texto, desde a ideia inicial até à pequena obra finalizada, passando por todas as reflexões, alterações e correções. A leitura leva à escrita e viceversa, num ciclo harmonioso e frutífero. As Oficinas acontecem semanalmente e estão pensadas como um todo articulado, de análise e progressão nas competências de leitura e escrita. Para além disso, cada aluno pode levar para ler em casa o livro que quiser de entre os muitos disponíveis na biblioteca do projeto. Livros esses escolhidos pela qualidade dos seus textos e ilustrações, pela sua variedade, pela representatividade dos melhores autores de literatura infantil e juvenil, e pela possibilidade de expansão dos textos e temas tratados na Oficina.

 
Retomo em Outubro a Oficina de Leitura e Escrita, confiante e feliz pelas provas dadas em 2014/2015: os alunos que a frequentaram regularmente leram bastante mais do que até então e, sobretudo, passaram a encarar o processo de escrita de forma mais consciente e decidida, mas, contemporaneamente, mais descontraída. A gradual apropriação da escrita enquanto mecanismo de questionamento e reflexão sobre si próprio, os outros e o mundo, fez com que os textos produzidos se tornassem cada vez mais fluídos e relevantes.

NOTA: A Oficina de Leitura e Escrita é também itinerante, podendo ser realizada de forma pontual em escolas (1º e 2º CEB e Ensino Secundário) e bibliotecas, ou como formação (para a implementação de um projeto continuado semelhante, com objetivos idênticos, adaptado ao contexto de cada instituição).

Informações: paula.cusati@gmail.com

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Os 10 direitos inalienáveis do leitor


Continuo com Pennac a reflexão sobre a leitura e sua promoção, partindo do ponto onde terminei com Rodari:

" O verbo ler não suporta o imperativo. É uma aversão que compartilha com outros: o verbo "amar"... o verbo "sonhar"...

Embora sejam sobejamente conhecidos, creio que nunca é demais repetir os seus


DIREITOS INALIENÁVEIS DO LEITOR

1. O direito de não ler
2. O direito de saltar páginas
3. O direito de não acabar um livro
4. O direito de reler
5. O direito de ler não importa o quê
6. O direito de amar os "heróis" dos romances
7. O direito de ler não importa onde
8. O direito de saltar de livro em livro
9. O direito de ler em voz alta
10. O direito de não falar do que se leu.

In Daniel Pennac, Como um romance, Edições Asa


Mas o melhor é reler todo o livro, não acham?