sexta-feira, 4 de setembro de 2015

As fichas de leitura, esse presente envenenado

A escrita do  "Decálogo para fomentar o amor pela leitura" levou-me à reflexão sobre outras listas e textos que têm sido norteadores do meu caminho como mediadora de leitura. No ponto 4, "Abandona as fichas de leitura, esse presente envenenado", pensei obviamente no texto da autoria de Leonor Riscado e Rui Marques Veloso (que tive a sorte de ter como professores de Análise Textual na 1ª Pós-Graduação em Livro Infantil). Partilho aqui esse texto, mais atual do que nunca, vista a avalanche (motivada certamente pelas metas de Educação Literária ditadas pelo Ministério da Educação) de edições de obras de literatura infantil acompanhadas desse "presente tóxico".


A LITERATURA INFANTIL NÃO PRECISA DE FICHAS

Por que motivo há livros para crianças com umas estranhas fichas no final, logo após o texto a ser lido? Será que os livros dirigidos aos adultos incluem fichas desta natureza? É claro que não! Tudo resulta de um grande equivoco entre a leitura de um texto literário para crianças e a necessidade que pais e professores sentem em avaliar a compreensão do texto em causa e/ou realizar prolongamentos do mesmo. Estamos perante um problema grave que exige reflexão da nossa parte. 
É hoje comummente aceite que o livro para crianças deve ser um objecto de arte e, por isso mesmo, possuir uma dimensão estética; o texto literário, a ilustração e o trabalho do designer gráfico formam um todo que vai ser fruído pelo jovem leitor, tantas vezes quantas o livro é aberto para puro gozo de quem saboreia uma iguaria. Este facto não anula, antes reforça, a apreensão de saberes que qualquer leitura oferece, o que representa uma mais-valia para um ser em construção. Toda a literatura, seja para adultos, seja para crianças, traz consigo uma vocação pedagógica, porque fala do mundo e contribui para que o compreendamos; nunca somos os mesmos após a leitura de uma obra. Com as crianças, tudo isto é facilmente visível, porque a polissemia do texto e da imagem vai alimentar o seu conhecimento linguístico, a sua capacidade de verbalização das emoções, a sua ligação afectiva aos outros. A cumplicidade que um livro gera entre o adulto e a criança leitora (aqui num sentido muito amplo, que inclui as que ainda não foram alfabetizadas) é fundamental para o desenvolvimento desta.
Há pais que, na ânsia de levar os seus filhos a níveis escolares de excelência, o que é natural, transformam os poucos momentos de que dispõem para brincar com as crianças em meros prolongamentos da escola, sacrificando esse espaço de ternura e de amor em nome de hipotéticos avanços cognitivos.  
Vemos, com frequência, que uma simples história vai ser pretexto para largos minutos didácticos e pedagógicos, transformando-se o pai (ou a mãe) num segundo professor, o que traz consequências negativas que não podem ser subestimadas. Interessará realmente verificar se a criança compreendeu a história? Para ela, o mais importante foram aqueles minutos mágicos em que o pai e/ou a mãe lhe leram a história, salpicada pelo olhar e voz doces que jamais esquecerá. E se não tiver compreendido alguma coisa, ela pergunta, porque uma criança não é idiota.
Há professores que vivem numa inteira dependência das fichas, reduzindo parte significativa do trabalho escolar à sua utilização em sala de aula. Se encontram um livro de narrativas com fichas de explicação dos textos, de aplicação de uma moral (?) ou de exercícios de vocabulário, ficam felizes, porque podem ocupar as crianças com essas tarefas. Trata-se de um terrível engano, pois a leitura recreativa dispensa fichas de interpretação ou de aplicação de conteúdos.
Certos editores, conhecendo estes pecados de pais e docentes, apostam nestas fichas na medida em que sabem que os livros se vendem mais facilmente. Está na altura de todos dizermos Não! As crianças merecem o nosso respeito e não podem ser enganadas com a conivência dos adultos responsáveis pela sua formação.
Os pais recorrerão aos livros para alimentarem momentos de amor e de humor, ajudando os filhos a descobrir o seu mundo interior e a compreender o meio envolvente – este é o segredo dos bons livros para crianças, livros que ajudam a crescer, de forma harmoniosa. Os professores, em nome da eficácia, distinguirão, de forma muito clara, o que e a leitura de puro prazer e recreio da leitura de trabalho, que exige esforço e alargamento de competências; neste caso, quando quiserem recorrer a questionários ou a outras ferramentas, farão as devidas opções que, somos levados a crer, não se coadunam com o estereótipo que tolhe a imaginação e a inteligência.
Por tudo o que foi referido, acreditamos que as escolhas de livros presentes nas listas do P.N.L., se pautarão pela observação atenta dos livros a serem escolhidos para as crianças, pondo de lado aqueles que trazem consigo um presente tóxico – a fichazinha.
Rui Marques Veloso
Leonor Riscado

Decálogo para fomentar o amor pela leitura (para professores)

Após uma longa pausa, recomeço com algo que me parece importante, dado o início iminente de um novo ano letivo e o regresso, esta semana, à escola da maior parte dos docentes. Este decálogo que vos deixo foi inspirado noutro da escritora Annalisa Strada que o partilhou aquando da sua comunicação em Março deste ano na Feira do Livro Infantil de Bolonha. Quando comecei a traduzir o texto da autora italiana, que se dirige aos alunos, apercebi-me de que o que eu queria publicar era outro decálogo. Baseei-me no seu, na estrutura e nas ideias, mas pretendi falar com os professores, sem os laivos sarcásticos do texto de Annalisa Strada. 


DECÁLOGO PARA FOMENTAR O AMOR PELA LEITURA

1. Lê, lê muito. Só assim farás com que leiam.
2. Lê sempre antes de dares a ler.
3. Não faças perguntas para saberes se leram, estás a perder tempo. Para isso, existem os exercícios do manual.
4. Abandona as fichas de leitura, esse presente envenenado.
5. Dá a ler mais do que os clássicos. Confia nos bons editores, no teu bom gosto e no dos teus alunos.
6. Não há géneros melhores do que outros. Varia bastante para que os teus alunos possam mais facilmente encontrar o livro certo.
7. Os teus alunos não são novos demais ou grandes demais para ler certos livros. Mas se precisarem do teu apoio, sê ponte.
8. A leitura em sala de aula nunca é uma perda de tempo, mas uma oportunidade de concentração, descoberta e sonho.
9. Não trates os livros como peças de museu. Dessacraliza-os para que façam parte do quotidiano dos teus alunos.
10. O preço não é desculpa para não ler. Um bom livro custa quanto uma semana de raspadinhas e euromilhões. Além disso, há por aí tantas e tão boas bibliotecas onde ler ainda é grátis!

sexta-feira, 12 de junho de 2015

As Guardas: Guardiãs de Tesouros XVIII

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui todas as semanas uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.


 
Madlenka
Peter Sis
Allen & Unwin, 2000

terça-feira, 2 de junho de 2015

As Guardas: Guardiãs de Tesouros XVII

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui todas as semanas uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.

guarda final



O Mundo num Segundo
Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho (ilustrador)
Planeta Tangerina, 2008

quarta-feira, 27 de maio de 2015

As Guardas: Guardiãs de Tesouros XVI

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui todas as semanas uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.

 
 

O Livro dos Quintais
Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho (ilustrador)
Planeta Tangerina, 2010

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Apresentação dos Livros Teatro e Dança

"O teatro é uma casa onde os artistas vivem, onde preparam histórias, músicas e danças que fazem o público viajar para um mundo diferente daquele em que vive, um mundo fabuloso, de onde se sai mais contente, mais inteligente, mais recheado de emoções e sensações. Os espectáculos que vais ver no teatro servem para crescer, para fazer o tempo parar, para iluminar e aquecer, servem para te encontrares com muitas pessoas e ideias - que conheces e que não conheces."
                                                                   O Livro Escuro e Claro,  Madalena Victorino e Inês Barahona,
                                                                                     com ilustrações de Rita Batista.




Ricardo  Henriques (texto) e André Letria (ilustração) começam por explicar a etimologia da palavra teatro e em seguida declinam-na, de A a Z, em todas as suas múltiplas componentes. Nada escapa a este atividário - dicionário e livro de atividades dedicado à expressão dramática. Para quem já conhece Mar, o primeiro destes livros informativos publicados pela Pato Lógico Edições, garanto que este segundo, uma encomenda do Teatro Maria Matos em regime de coprodução com outros teatros nacionais, não irá desiludir. O livro é, do princípio ao fim, uma mina de preciosidades acerca desta grande arte que é o Teatro.


 
 
Descobrimos a importância do "AQUECIMENTO: Antes de entrar em cena, parte da preparação do ator é aquecer a voz com exercícios de articulação e projeção. Um deles é a repetição dos sons si, fu, chi e pá, que ajuda a abrir o diafragma. Se tivéssemos mais espaço, eu tagarelaria, tu tagarelarias, ele tagarelaria, nós tagarelaríamos, vós tagarelaríeis e eles tagarelariam sobre este e outros trava-línguas que ajudam a treinar a dicção do ator ou ainda sobre o aquecimento do corpo que precisa de flexibilidade, agilidade, respiração e ritmo ou sobre exercícios de concentração, compreensão, memória, afetividade, instinto e imaginação que aquecem as emoções dos atores."
 


Ficamos a conhecer todas as pessoas que compõem uma companhia de teatro, bem como as diferentes partes de um palco, ou até as várias formas de abertura do pano.


Viajamos até ao tempo de Gil Vicente e de Shakespeare.

 
Somos convidados a visitar as ruínas do Teatro Romano de Lisboa.
 
 
Aprendemos a fazer máscaras com diferentes materiais ou um pequeno teatro de robertos.

 
 
Reparamos na relevância da luz, do escuro, das pausas e do silêncio.
 
 
Tudo isto e muito, muito mais, num livro fundamental para as bibliotecas, as escolas e os quartos das crianças. Porque as leva não só a conhecer, a  analisar, a questionar, a refletir, a criticar as representações teatrais a que assistem, mas convida também à experimentação. Como afirma a artista e educadora dinamarquesa  Anna Marie Holm, "As crianças pequenas não observam apenas a arte à distância. As crianças querem fazer parte da arte."
É ainda um excelente livro para a leitura partilhada, em família, pois oferece inúmeras oportunidades de conversa saborosa em torno da sua riqueza enciclopédica.
 
 
 
 
Dança, de João Fazenda, faz parte da coleção "Imagens que contam", sem palavras, apenas a do título. Como informa o site da editora, esta coleção "surgiu em 2013 como um espaço de liberdade criativa para ilustradores que procuram contar histórias através da sua arte – a ilustração. As regras são simples: há 32 páginas e guardas para contar a história, o título é uma palavra apenas e o logo do Pato Lógico deve ser recriado."
 
 
 
 
Mostro apenas o início e espero por quem se queira juntar a mim e ao André Letria, pluripremiado ilustrador, e editor da Pato Lógico,  às 11:00 do próximo domingo, dia 24, na Biblioteca do Centro de Artes de Sines, para juntos darmos voz a esta e a muitas outras histórias que habitam os livros que hoje aqui trouxe.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Semana da Educação Artística 2015

Nestes dias em que tanto se fala de exames e provas nacionais nas escolas, meios de comunicação e redes sociais, é bom lembrar que a partir de dia 23 de Maio se celebra a Semana da Educação Artística, instituída pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) em 2012. O seu objetivo é sublinhar a importância das artes para o desenvolvimento harmonioso dos indivíduos e das sociedades, como motor de diálogo, tolerância, criatividade e reinvenção.
Aqui bem perto, o Centro de Artes de Sines volta a propor uma excelente programação para agentes educativos, alunos e famílias, em redor do teatro, da dança, da música, da pintura e da literatura.

 
 
No domingo, dia 24 às 11h, lá estarei para conversar com o André Letria e apresentar os livros Teatro e Dança, editados pela Pato Lógico. Muito em breve darei mais notícias.
 
                                                                                     imagem: site da editora
 
 
                                                    imagem: site da editora