domingo, 15 de fevereiro de 2015

Luísa Dacosta (1927-2015)



Com bem afirma o professor José Alfaro (que em 2009 nos deu a oportunidade de a ouvir numa das conferências da I edição da Pós-Graduação em Livro Infantil) não há melhor forma de a homenagear do que dar a ler Luísa Dacosta:

"um livro

Desejas

Um tapete mágico que num abrir e fechar de olhos, 
te leve aos confins da Terra?

Uma máquina de viajar no tempo, para o futuro a haver, desconhecido,
para o passado histórico ou para aquele em que os animais falavam?

Companheiros para correrem contigo a aventura de mares ignorados
e de ilhas que os mapas não registam?

Conhecer mundos para além do nosso sistema solar, 
a anos-luz da nossa galáxia, sem necessidade de foguetão?

Saber a idade de uma pedra ou os mistérios da realidade,
das águas, dos bichos, dos pássaros e das estrelas?

Descobrir a arca encantada, onde se guardam os vestidos "cor do tempo",
das princesas de era uma vez, aquelas que se transformavam em pombas
ou dormiam em caixões de cristal, à espera que o príncipe viesse despertá-las?
Desfolhar as pétalas do sonho no país da noite? 
Abre um livro.

Um livro é tudo isso de cada vez e, às vezes, ao mesmo tempo.
Um livro permite-te contactar com outras imaginações, outras sensibilidades.
É a possibilidade de estares noutros lugares, sem abandonares o teu chão, 
de ouvires pulsar outros corações, de vestires a pele humana de outro 
ou outros sem deixares de seres tu.

E, com o livro, a varinha de condão não está na mão das fadas,
está em teu poder.
É do teu olhar, de cada vez que te dispões a ler, 
que nascem aqueles mundos, caleidoscópicos, de maravilha
- e só desaparecem quando fechas o livro.
Mas, a um gesto do teu querer, 
voltarão a surgir sempre, sempre, sempre..."

 Luísa Dacosta, in História com Recadinho, ed. Asa


Aconselho também o seu diário, Na Água do Tempo, ed. Asa. E aqui uma excelente entrevista à autora.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

As Guardas: Guardiãs de Tesouros III

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui todas as semanas uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.




 
 
Maruxa
Eva Mejuto e Mafalda Milhões (ilustradora)
OQO, 2014

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

As Guardas: Guardiãs de Tesouros II

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero celebrar. Deixarei aqui todas as semanas uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado.

 
 
 
 
Todos no sofá
Luísa Ducla Soares e Pedro Leitão (ilustrador)
Livros Horizonte, 2001


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

As Guardas: Guardiãs de Tesouros

Começam amanhã as Conversas Pequenas para Pais (e familiares interessados)! Quero receber estes dois grupos de pais que se juntarão a mim para falarmos de literatura infantil, maturidade leitora, leitura partilhada, e muito mais, com um presente: uma nova rubrica aqui no Pequeno Armazém de Palavras.
As protagonistas serão as guardas, as folhas iniciais e finais que unem a capa ao miolo do livro. Verdadeiras guardiãs de tesouros, merecem realmente um olhar atento, como afirma a Isabel Minhós Martins, neste magnífico texto, de que reproduzo uma parte:

" Podem ter padrões que se repetem, detalhes das imagens do interior ou ilustrações feitas à sua medida.(...)Podem servir para aproveitar o livro até à última gota ou apenas para o deixar respirar: no início, para ganhar fôlego; no fim, para recuperar da corrida das páginas.
Quando tal acontece, quando as guardas têm direito a vida própria, podem ultrapassar as suas funções de ordem mais prática ou funcional, e tornar-se importantes espaços de comunicação.
Por se colocarem "à entrada" e "à saída" do livro, servem de antecâmara para o que se vai passar, e de remate, no final. Mas, muitas vezes, acabam por funcionar como um suporte paralelo, quase à parte, um espaço livre e aberto à imaginação de ilustradores e designers."

É este espaço livre e aberto à imaginação dos leitores que quero agora celebrar. Quando trabalhava numa biblioteca municipal, dediquei-lhes uma exposição. Aqui, a partir de hoje, deixarei todas as semanas uma ou duas imagens das guardas iniciais e finais de um livro. Num silêncio atento e deslumbrado. 
 
 
 
Pê de Pai
Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho (ilustrador)
Planeta Tangerina, 2006
 
 
 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

As melhores prendas de Natal

Daqui a algumas horas, na manhã de Natal, as crianças abrirão os embrulhos e lá dentro encontrarão, espero, as melhores prendas: as que desfazem estereótipos e preconceitos, as que alargam horizontes, as que estimulam a sua imaginação e criatividade, as que lhes proporcionam brincadeiras infinitas.

Provavelmente, já muitos terão lido as instruções para os pais da autoria da Lego (1973), mas como acho que vale a pena lembrar, deixo aqui a minha tradução:

"Para os pais,
A vontade de criar é forte em todas as crianças. Sejam meninos ou meninas.  O que conta é a imaginação. Não a habilidade. Podes construir o que te vem à cabeça, da maneira que quiseres. Uma cama ou um camião. Uma casa de bonecas ou uma nave espacial. Muitos meninos gostam de casas de bonecas. São mais humanas do que as naves espaciais. Muitas meninas preferem naves espaciais. São mais excitantes do que as casas de bonecas. O mais importante é dar-lhes o material certo e deixar que criem o que quer que as fascina."

Desejo a todos os pais serenidade e sabedoria, para que no sapatinho os seus filhos encontrem não muitos presentes, mas pelo menos uma das melhores prendas que acima referi, e que essa prenda sirva para muitas brincadeiras em família. 

Por exemplo, livros: 




Todos fazemos tudo, de Madalena Matoso
Planeta Tangerina



Um livro-jogo, tipo méli-melo, sem palavras, com detalhes divertidos. Na parte de cima, é apresentada a personagem e o seu contexto espacial e temporal. Na parte de baixo, descobrimos o que está a fazer. O leitor vai construindo as inúmeras histórias possíveis, num mundo em que a raça, o sexo, a idade não constituem limites. 
Editado originalmente pelas Editions Notari, com o título Et porquoi pas toi?, foi vencedor de um concurso lançado pelo município de Genebra (Suíça) com o intuito de sensibilizar para a igualdade entre homens e mulheres. 




Não é uma caixa, de Antoinette Portis
Editorial Presença

Um livro que me recorda a minha infância. Quando uma caixa de papelão era muito mais do que isso! Saltava lá para dentro e passava horas a brincar com ela. Era casa, barco, avião... 
Espreite aqui o link do trailer da edição brasileira: http://youtu.be/2cJkA9h3Hxk







Immagina..., de Norman Messenger
White Stars

Pode descobri-lo aqui: http://youtu.be/bDXyNYdFSqY
Pleno de imagens que se transformam, enigmas, objetos escondidos, este livro garante diversão para toda a família. Convida-nos a não colocar limites à fantasia, deixando que todos construam as suas brincadeiras / leituras sem condicionamentos.


Que o novo ano traga para os nossos filhos um mundo de possibilidades infinitas!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A Importância da Leitura na Creche / JI "O Montinho"


fotografia de Renato Paiva
No dia 2 de Dezembro, dinamizei a palestra “A Importância da Leitura para o Desenvolvimento Emocional, Cognitivo e Criativo da Criança” na Creche / Jardim-de-Infância “O Montinho”. Gostaria de agradecer à Santa Casa da Misericórdia de Santiago do Cacém, em particular, à sua Diretora, a Dra Ana Calado, e à coordenadora pedagógica, Ed. Antonieta Pereira, a oportunidade de partilhar, com os cerca de 50 pais e profissionais daquela instituição, ideias acerca da relevância de um contacto precoce com livros de qualidade, através de uma leitura partilhada dos mesmos, em família.

Dedicar quotidianamente um pouco do tempo que passamos com os nossos filhos a escolher um livro, a folhear as suas páginas, a ler em voz alta, a interrogar e a descobrir os significados possíveis escondidos nas ilustrações e nas palavras que narram a história, enfim, a conversar com as crianças acerca dos livros e da leitura é fundamental para a aquisição de hábitos de leitura. Refletimos acerca dos benefícios desta prática para o fortalecimento dos laços afetivos entre pais e filhos, bem como para a socialização e conhecimento de si próprio e do mundo. Vimos ainda, através de exemplos concretos de bons livros, como a leitura partilhada potencia o desenvolvimento intelectual, a capacidade de expressão, a concentração e a criatividade da criança. Confirmámos o ritual da canção de embalar e da história da boa noite como fator que contribui para uma boa higiene do sono. Em suma, compreendemos a importância fulcral da qualidade dos estímulos precoces para o desenvolvimento global da criança.

Talvez em 2015 nasça um novo grupo das Conversas Pequenas, desta feita, para as famílias, para aprofundar estas questões, na teoria e na prática, pois muitos têm sido os pais que me têm contactado para conselhos e sugestões concretas de boas leituras.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O meu avô, o cante e os contos

O meu avô Manuel, que faria daqui a uns dias 94 anos, teria ficado tão feliz com a notícia de que o cante foi declarado património imaterial da humanidade.
ilustração de Susa Monteiro
Nas noites de Inverno em que estávamos juntos, à lareira, o meu avô Manuel contava-nos histórias que alargavam o serão. Eram contos de meninos travessos, de princesas preguiçosas, de um touro azul. Histórias que ainda hoje habitam os meus sonhos.
 
Natural de Aljustrel, mineiro no Lousal durante 25 anos, o meu avô Manuel, já velhinho, emocionava-nos a todos com a sua voz forte sempre que cantava as modas antigas.

ilustração de Susa Monteiro