sábado, 14 de junho de 2014

A Melhor Lista de TPCs para as Férias de Verão

Terminou esta semana mais um ano letivo. Muito provavelmente, os vossos filhos trouxeram para casa a famosa lista dos TPCs para férias ou o famigerado livro de fichas aconselhado.
Em Itália, circula atualmente no Facebook  uma lista de TPCs para as férias de Verão, publicada por uma mãe, em que se elogia a fantástica professora da filha pela criatividade e originalidade. A história chegou até aos jornais. Mas a triste verdade é que ninguém cita o autor desta lista, que não é a professora...
Porque a lista contém muito daquilo que os nossos filhos e alunos deveriam fazer após 9 meses de trabalho na escola, publico a tradução do original, cujo autor é  Echino Giornale Bambino, um menino de papel de jornal, criação da ilustradora Elisa Squillace e da escritora Maria Giuliana Saletta:
"Proponho que sejamos nós, as crianças, a decidir quais os trabalhos de casa a fazer durante as férias. Faço-vos uma lista dos que eu gostaria, vocês escrevam a vossa! Quem sabe se não conseguimos convencer a nossa mãe, o nosso pai, ou a professora / o professor, pois já trabalhámos durante nove meses e agora merecemos FÉRIAS.

 LISTA DOS TPCs PARA AS FÉRIAS:
- Dar pelo menos uma cambalhota por dia.
- Correr nos prados ou na praia.
- Gritar ao eco: "Olá, quem é o mais bonito de nós dois? e escutar o que ele responde.
- Pedir para nos levarem a uma livraria e vaguear à procura de um bom livro (colorido e simpático) parênteses meus, por achar os adjetivos desnecessários e até enganadores. E acrescento: ou biblioteca.
- Aborrecer-se (entediar-se) de vez em quando.
- Provar todos os  sabores de gelado.
- Observar as estrelas cadentes e exprimir o desejo mais belo. 
- Pedir ao avô que nos leia uma história em voz alta e, a duas páginas  do final, fechar o livro e brincar a como a historia pode terminar, depois ver como efetivamente acaba.
-  Escrever uma carta à avó. Também vale um desenho.
- À escolha, mas pelo menos duas: ir à pesca com o pai, fazer um bolo com a mãe, ir ao cinema ao ar livre com os amigos, mergulhar no mar, visitar um museu.
- Inventar os palavrões para dizermos quando estamos zangados, tipo: oh bulacas! peracozida!,  caradecanjaaquecida!
- Contar quantas coisas bonitas fizemos durante a semana. 


Que esta lista, aparentemente ligeira, mas de uma riqueza intrínseca enorme, nos inspire a refletir e a levar a pensar os nossos filhos / alunos sobre a importância das férias, do ócio, da felicidade e da partilha.

Aqui em casa, as férias e as leituras de Verão já começaram. A primeira é:




Entretanto, este blogue também vai de férias! Vemo-nos a 21 de Julho! 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Rubem Alves, o vagar, a curiosidade, o amor e a leitura

O brasileiro Rubem Alves tomou contacto com o modelo pedagógico de Gianfranco Zavalloni e escreveu sobre ele no livro de crónicas A Pedagogia dos Caracóis, editado em 2010 e finalista do 53º Prémio Jabuti na categoria Contos e Crónicas.
Um excerto de uma delas (obrigada, Susana Cheis, por ma teres mostrado!) dá muito que pensar:

" A lentidão é virtude a ser aprendida num mundo em que a vida corre ao ritmo das máquinas. Gastar tempo conversando com os alunos. Saber sobre as suas vidas, os seus sonhos. Que importa que o programa fique atrasado? A vida é vagarosa. Os processos vitais são vagarosos. Quando a vida se apressa é porque algo não vai bem. Adrenalina no sangue, o coração disparado em fibrilação, diarréia. Observar as nuvens. Conversar sobre as suas formas. A observação das nuvens faz os pensamentos ficarem tranqüilos.

As notícias dos jornais são escritas depressa. Por isso têm curta duração. Mas a poesia se escreve devagar. Por isso ela não envelhece. Inventaram essa monstruosidade chamada leitura dinâmica. Ela pressupõe que um texto é feito com poucas idéias centrais, tudo o mais sendo encheção de lingüiça. A técnica da leitura dinâmica é ir direto às idéias centrais, desprezando o resto como lixo. (...)  É preciso ler tendo a lesma como modelo... Devagar. Por causa do prazer. O prazer anda devagar. Você leu esse artigo dinamicamente ou lesmicamente ?
"

E neste vídeo de 3 minutos quantas verdades: partindo do papel do professor, mas falando de lentidão, curiosidade, espanto, relações, perguntas, prazer, assombro e leitura:



Pedagogia da Lentidão

No último encontro das Conversas Pequenas de 2013/2014 falámos de livros para os dias compridos que se aproximam, aqueles que podem ser explorados um pouco de cada vez, ou cuja leitura se pode estender por vários dias, enfim, histórias tão boas que nos dão inúmeras ideias para as ampliarmos com os nossos alunos / com as nossas crianças.

 
 
Um dos livros que levei foi História de um caracol que descobriu a importância da lentidão, do chileno Luis Sepúlveda, com ilustrações de Paulo Galindro. E esse livro levou-me a falar da Pedagogia da Lentidão, conceito introduzido pelo pedagogo italiano Gianfranco Zavalloni e desenvolvido no seu livro La Pedagogia della lumaca: per una scuola lenta e non violenta, de 2008. Como a conversa suscitou grande interesse, aqui vai o meu contributo para aprofundar o tema.
 
via
 
Neste livro, Zavalloni parte da constatação de que a escola atual segue o ritmo da vida moderna - um tempo feito de velocidade, de pressa, de aceleração - e reconhece a necessidade didática de abrandar. Propõe, assim, um novo modelo pedagógico a que metaforicamente deu o nome de "pedagogia do caracol". Segundo Zavalloni, é necessário perder tempo, para ganhar tempo. Para fazer de cada instante algo precioso para o aluno. Levando-o a:
 
escutar
dialogar
brincar
caminhar
observar
experimentar
esperar
crescer
 
Insiste na importância e nos benefícios da prática da caligrafia, com estilográfica, relativamente à motricidade fina, à retenção de informação e à criação de novas ideias. ( A este propósito, há três dias, o New York Times publicou um artigo interessantíssimo e muito bem fundamentado sobre este assunto). Em tempo de e-mails e sms, Zavalloni propõe a escrita de cartas e postais, como verdadeiras mensagens artísticas. Demonstra ainda que as fotocópias para pintar e as fichas são a morte da expressão artística. Relata igualmente a importância do trabalho criativo manual.
Afirma que andar a pé é a única maneira de conhecer a fundo o espaço onde nos inserimos e que fazê-lo em grupo permite viver emoções, notar pormenores que nunca veríamos ao passar, velozes, de carro, sentir os cheiros e experimentar sensações que criam laços. Diz que uma excecional escola de poesia é deitar-se na relva e observar as nuvens, imaginando formas e movimentos. Mas também é muito bom olhar lá fora, pela janela.
Interroga-se sobre porque dizemos "mau tempo". Não será uma questão de nos vestirmos bem para recebermos as nuvens cinzentas? Não serão a chuva e a neve abundantes bênçãos do céu?
Defende que cada escola possa ter uma horta, por mais pequenina que seja. De origem camponesa, este pedagogo que desapareceu cedo demais (faleceu em Agosto de 2012) conhecia o tempo ditado pela natureza, pelo ciclo das 4 estações, pelas sementeiras e colheitas. "Na época do tempo sem espera" é essencial compreender o valor das pausas fecundas.
 

Mais do que um modelo pedagógico, as suas são sugestões didáticas de desaceleração, assentes em escolhas simples, mas corajosas, que implicam simplificar, refletir, estabelecer prioridades e envolver as famílias através de pactos educativos. Já sei, estão a pensar nos programas para cumprir. Pois bem, quem me conhece, sabe que é isto que eu digo todos os dias. Talvez se eu citar Gianfranco Zavalloni vos soe melhor:
 
"Podemos mudar a escola sem necessidade de um ministro que nos venha com indicações ou imposições."

Acreditava que a mudança na escola pode acontecer todos os dias nas salas de aulas, graças aos bons professores, os que são conscientes, corajosos e esperançosos.

terça-feira, 27 de maio de 2014

A Poesia do Mar

O Google dedica hoje a sua página ao 107º aniversário de Rachel Louise Carson, biológa marinha, ecologista e escritora norte-americana.


Desconheço quem seja e sigo o link na wikipedia. Descubro outros e um em particular prende a minha atenção, pois tem muito a ver com um livro que reli ontem e de que falarei daqui a pouco.

Em 1951, Rachel Carson publica The Sea Around Us. O livro vence o National Book Award no ano seguinte e permanece na lista dos best-sellers do New York Times durante 86 semanas! Porém, o que me fascina é a abordagem da autora. Possuidora de uma enorme competência científica sobre o tema e narradora exímia, faz neste livro uma verdadeira biografia do mar, começando pelas suas origens, depois penetrando gradualmente de forma cada vez mais profunda abaixo da superfície, imergindo o leitor na própria essência do tema, embalado pela sua prosa.
As palavras de Rachel Carson justificam a sua escolha:
"os ventos, o mar, e as marés, são o que são. Se há maravilha e beleza e majestosidade neles, a ciência descobrirá essas qualidades. Se lá não estiverem, a ciência não as pode criar. Se há poesia no meu livro acerca do mar, não é porque eu a coloquei lá deliberadamente, mas porque ninguém poderia escrever fielmente sobre o mar e deixar de lado a poesia" (minha tradução)                                                                                                   
Muito mais do que um livro de divulgação científica, este é um verdadeiro hino aos mistérios e à poesia do mar. Conhecedora da tradição literária que imortaliza o mar, Rachel Carson cita o Livro de Job, Homero, Shelley, Milton, Darwin, Melville, Conrad, Eliot.
  
 Não pode citar Hemingway, pois é nesse mesmo ano em Cuba que ele escreve The Old Man and the Sea, que será publicado em 1952.


Reli ontem a edição dos Livros do Brasil, de 1956. A tradução é de Jorge de Sena, com ilustrações de Bernardino Marques. Um livro velhinho, manchado pelo tempo e pelas muitas mãos que antes de mim o acariciaram, que trouxe na semana passada da Biblioteca de Beja. Santiago, o velho pescador, continua a maravilhar-me. Tudo nele espelha a pureza do seu olhar e o respeito profundo que tem pelo mar e por todos os seres que o habitam. E apesar de todas as dificuldades, das dores e do cansaço, é sempre ao mar que ele quer regressar. É como um poema de amor ao mar, este livro. Como diz Jorge de Sena, no prefácio:
"(...) um breviário nobilíssimo da dignidade humana, escrito com a mais requintada das artes. Poucas vezes, no nosso tempo, terá sido concebida e realizada uma obra tão pura, em que a natureza e a humanidade sejam, frente a frente, tão verdade."

Estas leituras levam-me ao magnífico livro-álbum Un Hombre de Mar, de Rodolfo Castro, com ilustrações de Manuel Monroy, publicado em 2004 pelo Fondo de Cultura Económica, col. Especiales A la orilla del Viento.


 Onde o homem e o mar são um só, nem bom, nem mau, inesperado. Começa assim:
"Liborio tiene agua de mar en las venas.
Agua de los siete mares legendários.
Com pececitos y todo, com profundidades,
naufragios, mareas y oleajes."

Termino com um livro que fechou as Conversas Pequenas do mês de Maio sobre os livros pop-up.
Chama-se Oceano e os seus autores são Anouck Boisrobert e Louis Rigaud, de quem a Bruaá já publicou Popville e Na Floresta da Preguiça. Vejam que maravilha:


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Caminhos de Leitura

Há já vários anos que vou aos Encontros de Literatura Infantil e Juvenil organizados pela Biblioteca Municipal de Pombal. Gosto da simpatia com que nos recebem, do cuidado e do amor com que embelezam a Biblioteca para acolher as centenas de pessoas que rumam até lá e, sobretudo, da atenção e da sabedoria com que todos os anos elaboram um programa sempre diferente e surpreendente. Este ano também assim é. Estou quase a caminho!




quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dia Mundial do Livro 2014

Haverá melhor maneira de festejar este dia do que a conversar à roda dos livros?

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Dia Internacional do Livro Infantil

O Dia Internacional do Livro Infantil festeja-se a 2 de Abril, pois nessa data, em 1805, nasceu o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen.


As personagens dos seus contos povoam o imaginário de crianças e adultos de todo o mundo: princesas genuínas, rainhas e imperadores, soldadinhos de chumbo, rouxinóis, uma pequena sereia, o patinho feio. Porém, a imagem que delas faz cada um de nós é com certeza muito influenciada pela versão a que tivémos acesso. E aí a Disney reina...
Talvez muitos de nós nunca tenham lido os contos originais, isto é, a sua tradução a partir do textos escritos por Hans C. Andersen. Para quem é mediador de leitura, o conhecimento do original é imprescindível. Deixo-vos duas sugestões:

Hans C. Andersen, Contos de Fadas, D. Quixote, 2003



A.A.V.V., Ervilhas para Verdadeiras Princesas, Edições Eterogémeas, 2005