terça-feira, 25 de março de 2014

BARBRO LINDGREN ALMA 2014

 É Barbro Lindgren, autora sueca, a premiada com o Astrid Lindgren Memorial Award de 2014.

 
 

Embora faça para o ano 50 anos de carreira literária, a obra da autora não se encontra publicada em Portugal. Desconheço-a quase completamente. Apenas folheei uma vez, numa das lindíssimas e bem recheadas - de livros e de leitores - bibliotecas de Estocolmo, um livro infantil de Barbro Lindgren, Mamma och den wilda bebin (The Wild Baby é a tradução inglesa), ilustrado por Eva Eriksson:
 
 
Na sua motivação para a atribuição do prémio, o júri refere o caráter pioneiro da sua escrita, defendendo que a autora reinventou não só o picture book para os mais pequenos, mas também a história absurda em prosa, o poema existencial para crianças, e a ficção realista para jovens adultos.
 
Ao saber que tinha ganho este prémio, Barbro Lindgren disse estar muito feliz, pois tudo havia começado com uma carta da própria Astrid Lindgren, em que esta lhe explicava como escrever uma boa história. "Segui os seus conselhos e essa carta foi a minha universidade".
 
Astrid Lingren trabalhou numa casa editora durante quase 25 anos e recebeu inúmeros manuscritos de aspirantes escritores para a infância e juventude. Nesta carta , datada de 20 de Dezembro de 1964, em que responde ao envio da primeira tentativa de publicação da agora laureada ALMA,  Astrid Lindgren escreve (minha tradução):
 
"(...) a autora sabe tanto sobre crianças. Mas não sabe tanto sobre como construir e manter o interesse num manuscrito. O mesmo problema tem sido a causa do falhanço de muitos outros manuscritos - o autor indulgentemente supera as dificuldades saltando de um episódio para outro sem retirar o melhor de cada um deles. Muitos fazem isso, pois é uma maneira fácil de escrever livros.
Mas no seu caso, sente-se que, se se esforçasse um pouco, poderia voltar a pegar no livro e entregar algo com muito interesse. Como é que isto se faz, sim, gostaria, acredite, de saber explicar o que quero dizer! Só lhe posso dar algumas diretrizes. Antes de mais, menos episódios e menos personagens que nem se conseguem saborear. Cada capítulo deve ser uma espécie de conto com um núcleo sólido. Faça de conta que lhe deram um exercício de escrita: escrever de forma completa e detalhada como Mats uma vez fugiu para casa da avó. (...) Faça de conta que a sua tarefa é escrever sobre isso - e apenas sobre isso - continuando até sentir que a tensão se acumula de forma perfeita e a agarra até ao final."
 
Um excelente conselho para quem quer ser escritor, não acham?

segunda-feira, 24 de março de 2014

O Centro do Mundo do Livro Infantil

Todos os anos, por esta altura, Bolonha é o centro do mundo, no que ao Livro Infantil diz respeito. É na Fiera del Libro per Ragazzi di Bologna que se juntam profissionais (editores, escritores, ilustradores, tradutores, agentes literários, distribuidores, livreiros, bibliotecários, docentes, etc) dos 5 continentes para traçarem o destino da editoria infantil dos próximos tempos.


País convidado da edição de 2012, Portugal levou a Itália a exposição de ilustração Como as Cerejas, que neste momento pode ser visitada no Centro Cultural de Belém, com oficinas de ilustração orientadas por Danuta Wojchiechowska.

 
Este ano a Feira faz 50 anos e o nosso país estará representado pela DGLAB, que no seu espaço dará destaque à vencedora do último Prémio Nacional de Ilustração, Ana Biscaia, com A cadeira que queria ser sofá, e a uma mostra de livros recentemente editados em Portugal.  Presentes estarão ainda a equipa Planeta Tangerina, bem como as editoras Pato Lógico e Orfeu Mini.

O Brasil será o convidado de honra deste ano.



Um dos elementos mais importantes desta Feira é a Exposição de Ilustração, verdadeira montra de prestígio mundial. Este ano, dos 3190 participantes, foram selecionados 75 artistas. Apenas uma é portuguesa: Catarina Sobral, com as ilustrações de O Meu Avô, editado pela Orfeu Mini.

 
 
Este ano, pela primeira vez, foi também pensado um espaço, o pavilhão 33, com uma programação especialmente concebida para as escolas e famílias.
 
Amanhã, às 11:50 portuguesas, será anunciado online o vencedor do Astrid Lindgren Memorial Award, de que já falei no ano passado. Este ano os candidatos portugueses são António Mota e Planeta Tangerina. A contagem decrescente já começou e o anúncio poderá ser acompanhado através deste link e também na Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha, como já é tradição.


sexta-feira, 21 de março de 2014

Poesia

Hoje de manhã desejaram-me Feliz Dia da Poesia! E eu sorri, grata por me lembrarem que é dia de ver a poesia do mundo. Como deviam ser todos os dias.

 
 
A poesia, segundo Maria Alberta Menéres, em O poeta faz-se aos 10 anos,  é: "(...) a beleza e o sentido das coisas e de nós próprios. É uma maneira de olhar o mundo. É uma forma de atenção a tudo. Ela pode estar em toda a parte: nós às vezes, é que não estamos onde ela está, só porque passamos ou vivemos distraídos."
 
 
 
Ou, como afirma Alice Vieira, no prefácio a O Meu Primeiro Álbum de Poesia, "(...) a poesia, apesar de se fazer com palavras, está muito além delas. É aquilo que essas palavras conseguem levar e depositar no nosso coração. E para que isso aconteça, não é preciso que sejam palavras complicadas, frases elaboradas, rimas perfeitas."
 
 
 
Pois a verdade é que "o poeta tem olhos de água para refletirem todas as cores do mundo, e as formas e as proporções exatas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem", como disse Manuel da Fonseca.
 
A poesia faz parte do meu trabalho. Uso-a nas sessões de contos, ou nos ateliers de escrita e é várias vezes tema das Comunidades de Leitores que dinamizo.
Considero essencial esse olhar inaugural que a poesia nos oferece. Penso que é fundamental contagiar os mais pequenos através da leitura e dessa "pedagogia do deslumbramento" de que fala Luísa Dacosta.
 
Através, por exemplo, de poemas como estes:
 
 
Bichinho de Conta
 
Bichinho de conta
conta...
E o bichinho de conta
contou 
que um dia
se enrolou
e parecia
um berlinde pequenino
de tal maneira
que um menino
de brincadeira
com ele jogou...
 
Bichinho de conta
conta...
 
E o bichinho de conta
contou.
                Sidónio Muralha in Bichos, Bichinhos e Bicharocos
 
 
 
A Cabeça no Ar
 
As coisas melhores são feitas no ar,
andar nas nuvens, devanear,
voar, sonhar, falar no ar,
fazer castelos no ar
e ir lá para dentro morar,
ou então estar em qualquer sítio só a estar,
a respiração a respirar,
o coração a pulsar,
o sangue a sangrar,
a imaginação a imaginar,
os olhos a olhar
(embora sem ver)
e ficar muito quietinho a ver,
os tecidos a tecer,
os cabelos a crescer.
E isto tudo a saber
que isto tudo está a acontecer!
As coisas melhores são de ar
só é preciso abrir os olhos e olhar,
basta respirar.
                 Manuel António Pina, in O Pássaro da Cabeça
 
 
 
Canção Infantil
 
Era um amieiro.
Depois uma azenha.
E junto
um ribeiro.
 
Tudo tão parado.
Que devia fazer?
Meti tudo no bolso
para não os perder.
                Eugénio de Andrade, in Primeiros Poemas
 
 
E tantos, tantos outros poemas. Aqui podem encontram muitos e bons:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
E se quiserem uma sugestão concreta de trabalho com a poesia, espreitem este belo exemplo de autoria da Cristina Taquelim.

 
 
Que encontrem sempre o tempo para ver a poesia do mundo!
 
 
 


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Iela Mari (1931-2014)

Silenciosa, como os seus livros, Iela Mari partiu na quarta-feira passada. Houve apenas uma breve referência no Corriere della Sera de Milão. A sua morte foi sussurrada ontem nas redes sociais em Itália por Gianna Vitali, viúva do mítico Roberto Denti, da Libreria dei Ragazzi.

                                                          

(Gabr)Iela Mari nasceu em 1931, em Milão, e licenciou-se em pintura na Academia de Belas Artes de Brera, onde conheceu aquele que viria a ser seu marido e famoso designer, Enzo Mari. Em 1968, a casa editora Emme Edizioni publica o seu primeiro livro Il paloncino rosso, uma pedrada no charco da editoria infantil italiana e mundial. Páginas brancas, pormenores a traço preto fino e uma mancha vermelha que nos surpreende e se transforma a cada virar de página: um balão, uma maçã, uma borboleta, uma papoila, um guarda-chuva. E um menino, claro. Com a sua capacidade infinita de sonhar, de ler o mundo.
Contemporânea de Bruno Munari e Leo Lionni, Iela Mari deixou-nos nove livros-álbum em que as formas e as cores são devolvidas à sua essencialidade, numa profunda atenção às pequenas maravilhas que nos rodeiam, resultando daí narrativas visuais claras e concisas, mas plenas de significado e que possibilitam inúmeras (re)leituras. A sua obra constitui uma revolução e um exemplo para quem trabalha com o design, a ilustração, a comunicação, a edição e a promoção da leitura.
Em Portugal, quatro dos seus livros foram publicados na década de 80 pela saudosa Sá da Costa Infantil, na coleção VER E LER:

"Ver e Ler é uma colecção destinada às crianças de idade pré-primária, que ainda não sabem ler ou estão iniciando a sua aprendizagem da leitura. Os quatro primeiros títulos da colecção, os famosos álbuns de Iela Mari que já correram mundo, baseiam-se numa experiência de comunicação visual fundamentada em conhecimentos psicológicos da actividade lúdica e cognitiva da criança. Nestes livros tanto o argumento como o seu desenvolvimento são de grande simplicidade de modo a que não seja necessária qualquer explicação escrita. Os protagonistas das histórias são suficientemente conhecidos sã çriança e ao mesmo tempo bastante estimulantes para a sua curiosidade; fazem parte daquele mundo susceptível de a encantar - uma lagarta poisada numa folha, um balão que se perde no ar, uma borboleta que saltita, ou um pintainho acabado de nascer.

A explicação da história está implícita e é imediata, os factos tornam-se evidentes através da imagem. A leitura das imagens pode fazer-se a vários níveis, consoante o desenvolvimento da percepção e dos conhecimento da criança; se guiada pelo educador ou pelos pais essa leitura pode ser ainda mais enriquecedora."




Em O Ovo e a Galinha, A Maçã e a Lagarta e A Árvore assistimos, com precisão científica e beleza poética, aos ciclos naturais. Narrativas circulares, eternos retornos, em que a emoção habita os mais pequenos detalhes.  Neste último, a passagem do tempo é magistralmente narrada através de uma "câmara fixa" que regista as alterações cromáticas, as chegadas e partidas, na certez da capacidade de regenração da natureza incontaminada pelo homem. A Kalandraka reeditou dois destes clássicos, tendo, porém, alterado, a meu ver erradamente, o título  de  A Árvore para As Estações,  com consequente mudança do ponto de vista. 



Estudiosa da comunicação visual, juntamente com o marido, co-autor de  O Ovo e a Galinha e A Maçã e a Lagarta, no final da década de 60 e na década de 70, Iela Mari pensou os seus livros, antes de os realizar, como obras de arte em que o silêncio deixa espaço para o deslumbramento. Algo tão necessário nos dias que correm. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mas é verdadeiramente importante ler em voz alta aos nossos filhos?

Para quem ainda tivesse dúvidas, esta infografia da organização ReadAloud.org vem confirmar minuciosamente a importância de ler em voz alta aos nossos filhos. Bastam 15 minutos por dia!

leer cuentos a los niños

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Contos de Ratinhos, de Arnold Lobel



                                                    
 
Haverá momento mais doce do que aquele em que uma criança é acompanhada na sua viagem até ao sono pelas histórias contadas pela voz de alguém que ama? É assim que tem início este livro, e embora quem peça uma história sejam sete ratinhos, reconhecemos neste ritual apaziguador a nossa própria infância e a dos nossos filhos. Desta vez, porém, o pai rato decide fazer algo ainda melhor: contará sete contos, um por cada filho, se prometerem adormecer logo de seguida, o que os ratinhos aceitam prontamente.

O poço dos desejos”, “Nuvens”, “O rato muito alto e o rato muito baixo”, “O rato e os ventos”, “A viagem”, “O rato muito velho” e “O banho” são narrativas breves com muitas peripécias e obstáculos, mas com finais felizes, que encantam e prendem a atenção dos leitores mais pequenos, pelo ritmo dado pela contenção sintática e vocabular, pelos frequentes diálogos, repetições, acumulações, humor, nonsense e suspense. A componente pictórica não só complementa a narrativa verbal com detalhe curioso e divertido (no índice inicial e ao longo de todo o livro), mas expande-a , nomeadamente, quando no início localiza espacialmente a ação numa casinha numa floresta coberta pela neve, e no final, quando nos mostra o que faz o pai rato depois dos pequenos terem adormecido. O caráter circular da diegese é evidenciado pela ilustração redonda inicial que mostra o pai pronto para contar à luz da vela e sete ratinhos bem despertos e que é reproposta no final, quase como num jogo com o leitor, para que descubra as diferenças e leia assim a passagem do tempo e o caminho em direção ao sono e ao sonho.

Um livro cheio de afetos e sorrisos para toda a família, que convida à releitura atenta. Porém, os mais pequenos beneficiariam mais da sua leitura se a tradução de Alexandre Honrado tivesse tido em conta que este foi originalmente pensado como um “I CAN READ BOOK”, ou seja, para ajudar no processo de aprendizagem da leitura.

Trinta e um anos separam a edição em língua original (Mouse Tales, 1972) da sua publicação em Portugal, e Arnold Lobel, figura inquestionável da Literatura Infanto-juvenil, dotado de um estilo essencial e poético, capaz de abordar, sem moralismos, com grande simplicidade, mas nunca de forma simplista, temáticas estruturantes para o crescimento dos seus leitores como o conhecimento de si próprio e dos outros, a família, a amizade, os medos, continua entre nós amplamente desconhecido, com apenas mais 3 livros publicados, todos pela mão da editora Kalandraka (Um Porquinho, O Tio Elefante, Sopa de Rato). Esperamos que 2014 nos traga as aventuras de Frog and Toad!

Histórias de Ratinhos
Arnold Lobel
Lisboa: Kalandraka, 2003

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Bons Propósitos

Embora o primeiro mês de 2014 já esteja quase no fim, a verdade é que este é o primeiro post do novo ano e acredito que é importante começar com bons propósitos. Este parece-me perfeito:

            LER AO MEU FILHO TODAS AS NOITES!

No dia 1 de Janeiro, assim escrevia Javier Salvatierra no El País:

"Parece unanimemente aceite que dedicar 15 minutos diários a ler em voz alta seja das melhores coisas que se podem fazer por e com uma criança. Não vou citar os benefícios intelectuais de tal atividade, nem os pormenores da formação da sua personalidade, do seu imaginário, nem a formação de hábitos saudáveis para o futuro. Limito-me ao prazer, para a criança e para o adulto, que supõe fazer do colo um trono e abrir uma janela infinita em apenas 15 minutos. Porque ler uma história a uma criança e, pelo que tenho visto, recebê-la, é um grande prazer. Constitui um momento especialmente íntimo e cúmplice, e poucas serão as ocasiões em que uma criança o rejeita: a atração estética dos livros álbum, alguns verdadeiras obras de arte; a simplicidade, aparente, das histórias; e, enfim, a magia que sempre tem o colo da mãe, do pai ou de quem quer que seja o contador de histórias constituem um chamariz quase irresistível, mesmo em tempos de ecrãs omnipresentes."