sexta-feira, 21 de março de 2014

Poesia

Hoje de manhã desejaram-me Feliz Dia da Poesia! E eu sorri, grata por me lembrarem que é dia de ver a poesia do mundo. Como deviam ser todos os dias.

 
 
A poesia, segundo Maria Alberta Menéres, em O poeta faz-se aos 10 anos,  é: "(...) a beleza e o sentido das coisas e de nós próprios. É uma maneira de olhar o mundo. É uma forma de atenção a tudo. Ela pode estar em toda a parte: nós às vezes, é que não estamos onde ela está, só porque passamos ou vivemos distraídos."
 
 
 
Ou, como afirma Alice Vieira, no prefácio a O Meu Primeiro Álbum de Poesia, "(...) a poesia, apesar de se fazer com palavras, está muito além delas. É aquilo que essas palavras conseguem levar e depositar no nosso coração. E para que isso aconteça, não é preciso que sejam palavras complicadas, frases elaboradas, rimas perfeitas."
 
 
 
Pois a verdade é que "o poeta tem olhos de água para refletirem todas as cores do mundo, e as formas e as proporções exatas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem", como disse Manuel da Fonseca.
 
A poesia faz parte do meu trabalho. Uso-a nas sessões de contos, ou nos ateliers de escrita e é várias vezes tema das Comunidades de Leitores que dinamizo.
Considero essencial esse olhar inaugural que a poesia nos oferece. Penso que é fundamental contagiar os mais pequenos através da leitura e dessa "pedagogia do deslumbramento" de que fala Luísa Dacosta.
 
Através, por exemplo, de poemas como estes:
 
 
Bichinho de Conta
 
Bichinho de conta
conta...
E o bichinho de conta
contou 
que um dia
se enrolou
e parecia
um berlinde pequenino
de tal maneira
que um menino
de brincadeira
com ele jogou...
 
Bichinho de conta
conta...
 
E o bichinho de conta
contou.
                Sidónio Muralha in Bichos, Bichinhos e Bicharocos
 
 
 
A Cabeça no Ar
 
As coisas melhores são feitas no ar,
andar nas nuvens, devanear,
voar, sonhar, falar no ar,
fazer castelos no ar
e ir lá para dentro morar,
ou então estar em qualquer sítio só a estar,
a respiração a respirar,
o coração a pulsar,
o sangue a sangrar,
a imaginação a imaginar,
os olhos a olhar
(embora sem ver)
e ficar muito quietinho a ver,
os tecidos a tecer,
os cabelos a crescer.
E isto tudo a saber
que isto tudo está a acontecer!
As coisas melhores são de ar
só é preciso abrir os olhos e olhar,
basta respirar.
                 Manuel António Pina, in O Pássaro da Cabeça
 
 
 
Canção Infantil
 
Era um amieiro.
Depois uma azenha.
E junto
um ribeiro.
 
Tudo tão parado.
Que devia fazer?
Meti tudo no bolso
para não os perder.
                Eugénio de Andrade, in Primeiros Poemas
 
 
E tantos, tantos outros poemas. Aqui podem encontram muitos e bons:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
E se quiserem uma sugestão concreta de trabalho com a poesia, espreitem este belo exemplo de autoria da Cristina Taquelim.

 
 
Que encontrem sempre o tempo para ver a poesia do mundo!
 
 
 


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Iela Mari (1931-2014)

Silenciosa, como os seus livros, Iela Mari partiu na quarta-feira passada. Houve apenas uma breve referência no Corriere della Sera de Milão. A sua morte foi sussurrada ontem nas redes sociais em Itália por Gianna Vitali, viúva do mítico Roberto Denti, da Libreria dei Ragazzi.

                                                          

(Gabr)Iela Mari nasceu em 1931, em Milão, e licenciou-se em pintura na Academia de Belas Artes de Brera, onde conheceu aquele que viria a ser seu marido e famoso designer, Enzo Mari. Em 1968, a casa editora Emme Edizioni publica o seu primeiro livro Il paloncino rosso, uma pedrada no charco da editoria infantil italiana e mundial. Páginas brancas, pormenores a traço preto fino e uma mancha vermelha que nos surpreende e se transforma a cada virar de página: um balão, uma maçã, uma borboleta, uma papoila, um guarda-chuva. E um menino, claro. Com a sua capacidade infinita de sonhar, de ler o mundo.
Contemporânea de Bruno Munari e Leo Lionni, Iela Mari deixou-nos nove livros-álbum em que as formas e as cores são devolvidas à sua essencialidade, numa profunda atenção às pequenas maravilhas que nos rodeiam, resultando daí narrativas visuais claras e concisas, mas plenas de significado e que possibilitam inúmeras (re)leituras. A sua obra constitui uma revolução e um exemplo para quem trabalha com o design, a ilustração, a comunicação, a edição e a promoção da leitura.
Em Portugal, quatro dos seus livros foram publicados na década de 80 pela saudosa Sá da Costa Infantil, na coleção VER E LER:

"Ver e Ler é uma colecção destinada às crianças de idade pré-primária, que ainda não sabem ler ou estão iniciando a sua aprendizagem da leitura. Os quatro primeiros títulos da colecção, os famosos álbuns de Iela Mari que já correram mundo, baseiam-se numa experiência de comunicação visual fundamentada em conhecimentos psicológicos da actividade lúdica e cognitiva da criança. Nestes livros tanto o argumento como o seu desenvolvimento são de grande simplicidade de modo a que não seja necessária qualquer explicação escrita. Os protagonistas das histórias são suficientemente conhecidos sã çriança e ao mesmo tempo bastante estimulantes para a sua curiosidade; fazem parte daquele mundo susceptível de a encantar - uma lagarta poisada numa folha, um balão que se perde no ar, uma borboleta que saltita, ou um pintainho acabado de nascer.

A explicação da história está implícita e é imediata, os factos tornam-se evidentes através da imagem. A leitura das imagens pode fazer-se a vários níveis, consoante o desenvolvimento da percepção e dos conhecimento da criança; se guiada pelo educador ou pelos pais essa leitura pode ser ainda mais enriquecedora."




Em O Ovo e a Galinha, A Maçã e a Lagarta e A Árvore assistimos, com precisão científica e beleza poética, aos ciclos naturais. Narrativas circulares, eternos retornos, em que a emoção habita os mais pequenos detalhes.  Neste último, a passagem do tempo é magistralmente narrada através de uma "câmara fixa" que regista as alterações cromáticas, as chegadas e partidas, na certez da capacidade de regenração da natureza incontaminada pelo homem. A Kalandraka reeditou dois destes clássicos, tendo, porém, alterado, a meu ver erradamente, o título  de  A Árvore para As Estações,  com consequente mudança do ponto de vista. 



Estudiosa da comunicação visual, juntamente com o marido, co-autor de  O Ovo e a Galinha e A Maçã e a Lagarta, no final da década de 60 e na década de 70, Iela Mari pensou os seus livros, antes de os realizar, como obras de arte em que o silêncio deixa espaço para o deslumbramento. Algo tão necessário nos dias que correm. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mas é verdadeiramente importante ler em voz alta aos nossos filhos?

Para quem ainda tivesse dúvidas, esta infografia da organização ReadAloud.org vem confirmar minuciosamente a importância de ler em voz alta aos nossos filhos. Bastam 15 minutos por dia!

leer cuentos a los niños

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Contos de Ratinhos, de Arnold Lobel



                                                    
 
Haverá momento mais doce do que aquele em que uma criança é acompanhada na sua viagem até ao sono pelas histórias contadas pela voz de alguém que ama? É assim que tem início este livro, e embora quem peça uma história sejam sete ratinhos, reconhecemos neste ritual apaziguador a nossa própria infância e a dos nossos filhos. Desta vez, porém, o pai rato decide fazer algo ainda melhor: contará sete contos, um por cada filho, se prometerem adormecer logo de seguida, o que os ratinhos aceitam prontamente.

O poço dos desejos”, “Nuvens”, “O rato muito alto e o rato muito baixo”, “O rato e os ventos”, “A viagem”, “O rato muito velho” e “O banho” são narrativas breves com muitas peripécias e obstáculos, mas com finais felizes, que encantam e prendem a atenção dos leitores mais pequenos, pelo ritmo dado pela contenção sintática e vocabular, pelos frequentes diálogos, repetições, acumulações, humor, nonsense e suspense. A componente pictórica não só complementa a narrativa verbal com detalhe curioso e divertido (no índice inicial e ao longo de todo o livro), mas expande-a , nomeadamente, quando no início localiza espacialmente a ação numa casinha numa floresta coberta pela neve, e no final, quando nos mostra o que faz o pai rato depois dos pequenos terem adormecido. O caráter circular da diegese é evidenciado pela ilustração redonda inicial que mostra o pai pronto para contar à luz da vela e sete ratinhos bem despertos e que é reproposta no final, quase como num jogo com o leitor, para que descubra as diferenças e leia assim a passagem do tempo e o caminho em direção ao sono e ao sonho.

Um livro cheio de afetos e sorrisos para toda a família, que convida à releitura atenta. Porém, os mais pequenos beneficiariam mais da sua leitura se a tradução de Alexandre Honrado tivesse tido em conta que este foi originalmente pensado como um “I CAN READ BOOK”, ou seja, para ajudar no processo de aprendizagem da leitura.

Trinta e um anos separam a edição em língua original (Mouse Tales, 1972) da sua publicação em Portugal, e Arnold Lobel, figura inquestionável da Literatura Infanto-juvenil, dotado de um estilo essencial e poético, capaz de abordar, sem moralismos, com grande simplicidade, mas nunca de forma simplista, temáticas estruturantes para o crescimento dos seus leitores como o conhecimento de si próprio e dos outros, a família, a amizade, os medos, continua entre nós amplamente desconhecido, com apenas mais 3 livros publicados, todos pela mão da editora Kalandraka (Um Porquinho, O Tio Elefante, Sopa de Rato). Esperamos que 2014 nos traga as aventuras de Frog and Toad!

Histórias de Ratinhos
Arnold Lobel
Lisboa: Kalandraka, 2003

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Bons Propósitos

Embora o primeiro mês de 2014 já esteja quase no fim, a verdade é que este é o primeiro post do novo ano e acredito que é importante começar com bons propósitos. Este parece-me perfeito:

            LER AO MEU FILHO TODAS AS NOITES!

No dia 1 de Janeiro, assim escrevia Javier Salvatierra no El País:

"Parece unanimemente aceite que dedicar 15 minutos diários a ler em voz alta seja das melhores coisas que se podem fazer por e com uma criança. Não vou citar os benefícios intelectuais de tal atividade, nem os pormenores da formação da sua personalidade, do seu imaginário, nem a formação de hábitos saudáveis para o futuro. Limito-me ao prazer, para a criança e para o adulto, que supõe fazer do colo um trono e abrir uma janela infinita em apenas 15 minutos. Porque ler uma história a uma criança e, pelo que tenho visto, recebê-la, é um grande prazer. Constitui um momento especialmente íntimo e cúmplice, e poucas serão as ocasiões em que uma criança o rejeita: a atração estética dos livros álbum, alguns verdadeiras obras de arte; a simplicidade, aparente, das histórias; e, enfim, a magia que sempre tem o colo da mãe, do pai ou de quem quer que seja o contador de histórias constituem um chamariz quase irresistível, mesmo em tempos de ecrãs omnipresentes."

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Manuel António Pina





O Têpluquê e outras histórias
Textos de Manuel António Pina 
Com ilustrações de Bárbara Assis Pacheco
Assírio & Alvim

Manuel António Pina faria hoje 70 anos. Quanta falta nos faz!



terça-feira, 12 de novembro de 2013

Recomeço

Após um interregno demasiado longo, recomeço exatamente onde acabei.
Do excelente encontro "Ler e Formar Leitores para o século XXI - Desafios digitais", guardo muitas intervenções interessantes e inspiradoras: a reflexão de Anabela Martins, com referência aos estudos internacionais mais recentes sobre a leitura digital e o leitor do futuro; o exemplo da Teresa Pombo e das suas  fantásticas Viagens Literárias ; a informação atualizadíssima sobre e-books que nos trouxe o Carlos Pinheiro; o projeto "Venham lá os exames!", do Agrupamento de Escolas da Vidigueira; as questões acerca da formação dos leitores do futuro e dos mediadores de leitura necessários para o efeito colocadas pela Maria do Sameiro Pedro; e, por último, a entrega e a generosidade de Cristina Taquelim que nos falou nos mais recentes projetos de mediação leitora da Biblioteca Municipal de Beja junto dos mais desfavorecidos e nos "desarrumou" com este seu texto (cito Fernando Pinto do Amaral, comissário do Plano Nacional de Leitura, que no início do encontro dissera "Aquilo que é importante na vida desarruma-nos"):


Aqui deixo o texto, cedido pela própria Cristina, a quem agradeço enormemente e peço perdão pela fraca qualidade do meu vídeo!

"Sei de uma casa que está sempre aberta e tem tantas portas e janelas como as emoções e os afetos que a vida nos desperta.
É uma casa imensa, onde se sente, onde se pensa. Uma casa onde se batalha para acordar o prazer de ler, ouvir e contar.
Nesta casa cruzam-se muitas histórias - as dos objetos e das pessoas que a habitam - e dentro delas, milhões de frases, biliões de palavras, triliões de letras todas alinhadas, prontas para serem celebradas.
Apesar de ser feita de matérias delicadas: palavras, afetos e memórias, consegue resistir ao temporal dos dias ou à solidão das horas.
Dentro dela descubro os lugares que nunca visitei, expresso o que penso, o que sinto, o que sei. Nela me acrescento, me encontro, aprendo.
Sei que também eu a posso habitar. Posso escutar os seus ecos, mirar-me nos seus espelhos, perder-me, caminhar.
Dizem-me às vezes:- Isso não existe.
Eu insisto e continuo a acreditar que existe uma casa assim!... um lugar onde cabem todas as representações humanas, um lugar de ler, de pensar, de expressar, emoções e utopias.
Um lugar de SER e também de MUDAR …todos os dias, numa viagem sem fim,
feita por dentro

de mim."
Cristina Taquelim